sábado, 30 de abril de 2011

Brinde ao possível

"Pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
_ digo sim."

sexta-feira, 29 de abril de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

Dest-erro.

Eu quero um trecho que marque a cara do meu erro, para que eu nunca mais esqueça:

Meu erro é filho da puta. É grande, é gordo e cheira mal; meu erro é assim, impossível de me passar despercebido. É um erro do caralho.

Devo dizer, caros, que a pior parte do meu erro é ser um bis. É um bis de um show ruim. É uma reincidência, que carrega uma incapacidade torturante.

Meu erro é um texto péssimo. Mas é meu. E é tão meu que se entranha e se faz presente em cada extremidade. Mais ainda dentro.

Vou contar:

Meu erro montou acampamento no meu coração. E quer terra, veja só.
Mas, como dói assentar um erro! Você já tentou?
Dói devagarinho.
Porque ele remexe a terra com unhas grandes e destrói o que estava construído antes.
Um erro não faz carinho, nem fala no ouvido; ele arranha.

Que seja.
A mesma veia cava da angústia, reconstrói.
E talvez sua função, meu erro, tenha sido o desterro.
Tenha sido amaciar a terra desse terreno baldio que é o meu coração.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um diálogo que vou querer lembrar

_ Vai ficar por aí?
_ Não, estou de passagem.
_ Certo, mas preciso falar com você. E também estou de passagem, já que só vou falar sobre isso uma vez.
_ Tudo bem. Tenho alguns minutos para ouvir com atenção.
_ É que hoje de manhã sonhei com você, sabe-se lá o porquê.
_ ...
_ Sabia que você ia fazer essa cara. Mas, sabe, eu amo muito minha namorada, respeito muito o que ela sente por mim e o que sinto por ela. Só que, algumas vezes, parece inevitável não pensar em você com desejo e, muitas vezes, não dá nem pra não pensar em você. Pronto, falei. Termino aqui porque, só de falar com você sobre isso, acho que já começo a trair. Mas eu tinha que falar, você me conhece.
_ Olha, eu te quero muito bem. Sabe disso. Me sinto lisonjeada quando escuto algo
assim, mas não vejo o que isso muda para nós. Pelo menos agora. Veja bem: fazer escolhas é importante. Você escolheu viver o que vive hoje, eu também e estou muito feliz com isso. Por outro lado, o futuro é o incerto. Eliminar as possibilidades é precipitado e imaturo.
_ É, isso não muda nada para nós. Estamos distantes e dificilmente ficaremos perto novamente. No entanto, você é uma constante em mim.
_ Eu sou uma variável. E, convenhamos: faz parte de uma vida satisfatória esse tipo de desejo. Também acordo pensando em pessoas, muitas vezes. Não se culpe, nem pense nisso como uma traição. São relações diferentes e admiro a sua sinceridade.
_ Sinto sua falta, mesmo sem saber como esse sentimento poderia existir. Vivemos na mesma cidade por pouco tempo e você fez questão de não ultrapassar o diálogo.
_ Ah, não diga que isso não é motivo pra saudade. Eu e você sabemos que a intensidade das relações não é medida pelo tempo. Nem, talvez, pelo que foi feito. Mas, muitas vezes, pelas linhas e entrelinhas; pelo que dissemos ou deixamos de dizer. E nós falamos sobre coisas muito sensíveis.
_ E eu, agora, sou pura sensibilidade e sinto uma vontadezinha de chorar...
_ Não, peloamor. Não quero ver você chorar. De qualquer maneira, acho que fiz parte de um momento chave na sua vida. Você descobriu, enquanto nos conhecíamos, coisas que refletem o que você vive hoje. É claro que isso nos marca.
_ E eu, tive a sorte de fazer parte de algum momento chave?
_ Sem dúvida. Minha vida tem várias portas.
_ E qual foi a porta que abri?
_ Bom, com você me vi, pela primeira vez, frente à alguém que sabia o que sentia, ainda que fosse inédito, e dominava muito bem isso. Era uma mulher que sabia lidar com a paixão que sentia. Que não tinha medo de estampar esse desejo, ainda que eu não estivesse receptiva, no momento. Essa atitude me constrange até hoje.
_ "Gosto de pessoas corajosas, que não têm medo da paixão". Foi mais ou menos isso o que você me disse quando contei que estava apaixonada por você.
_ Foi. E você foi corajosa.
_ E agora me sinto uma covarde, falando sobre isso com você às vésperas do meu casamento. A verdade é que sinto a sua falta. E sinto falta dos nossos diálogos. Gostaria de estar mais próxima.
_ Também gostaria que estivesse mais próxima para compartilharmos vontades e angústias. Aliás, uma corrente filosófica das que mais simpatizo diz que o Homem só atinge a plenitude do seu ser na angústia. O que pode ser um tanto trágico, mas, pra mim, é justamente na angústia, na escolha e nos limites que nos sentimos mais vivos.
_ Acho muito gostoso te ouvir falar. É uma pena que você tenha sido tão breve na minha vida, morena.
_ Não sinta pena. É a brevidade do gozo que multiplica o prazer.

domingo, 17 de abril de 2011

Quando a Lua pede

a lua dessa noite te pede três coisas:
que ponha uma música
que puxe essa âncora
que deixe a maré subir
e descer...
e subir...
e descer...

rebolar eu sei:
você é um barco a motor
louco pra ficar à deriva.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Primeiro estranha-se

depois entranha-se.

(Fernando Pessoa)

domingo, 10 de abril de 2011

Cor-respondência

"Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem-feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.

Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta."

Elisa Lucinda

(mais dela, delícia de poeta contemporânea: http://www.escolalucinda.com.br/bau.htm)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ecos da estação


- Eu te amo. Você me ama tanto quanto eu?
- E quanto você me ama?
- Infinito.
- ...
- Hein, me ama tanto quanto eu te amo?
- Não sei, é complicado, não gosto de pensar no fim.
- Mas é justamente o sem-fim!
- Só que pra pensar no sem-fim, é preciso pensar no fim primeiro.
- Ok, então te amo em círculo.
- Então eu te amo em círculo.

.....................

(Do fundo dessa lembrança,
pedras de açúcar acertam a tela
é outono:
memórias caem das árvores
e o chão fica cheio de passado)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Górgias, alguns séculos a.C.

"Os encantos inspirados por meio das palavras se fazem indutores de prazer e deportadores da dor; porque a força do encanto, somada à opinião da alma, fascina e persuade, transformando as palavras em feitiço [...]. A mesma razão tem a força da palavra ante a disposição da alma, como a dos remédios ante a disposição do corpo, pois assim como alguns remédios acalmam a doença e outros a vida, assim também as palavras. Umas afligem, outras espantam, outras alegram, outras transportam os ouvintes até ..."

domingo, 3 de abril de 2011

Careless Whisper

A verdade é que, nessas tardes, quando as nuvens carregadas intimidam o Sol do Rio de Janeiro e o tempo fecha assim, sem avisar às moças que circulam de biquíni pelo posto 9, o seu mistério se acentua.
É tão bonito, porque você também fica cinza, como a paisagem. E veste preto. E prepara um drink e falamos sobre coisas intensas. Eu digo que Dogville foi um dos filmes mais perturbadores que já vi e você, com um olhar frágil, diz que não teve coragem de rever o "Anticristo", ainda. Concordamos sobre o Lars Von Trier ser uma delícia de provocação e você levanta.
Enquanto escolhe o incenso, observo seus dedos, lentos, selecionarem dois ou três. Acendemos o primeiro naquela vela charmosa e, quando a chama se aproxima e o seu rosto esquenta, surpreendo aquele olhar frágil novamente em você.
Há muita beleza numa mulher forte que deixa escapar um olhar delicado. Os contrastes me seduzem, você sabe. Adoro preto e branco, doce e salgado, tapa com carinho.
Os contrastes potencializam e, por isso, em dias tão cinzas quanto esse, mulheres como você inspiraram os sólos de guitarra que escuto agora.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Metrópole

Faz algum tempo que sei disso: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u545908.shtml

Penso em quando o governo vai parar de adotar medidas alegóricas que não atacam a raiz do problema e só servem para amaciar a questão à curto prazo. Coloco no mesmo pacote do muro o bolsa família, as cotas universitárias e todos esses cheques que levavam o nome de "cidadãos".

Enfim, logo quando soube, eu e meu querido John sentamos, revoltados, para escrever sobre o muro (lembra disso? Eu lembro. O dia era frio e você estava de casaco preto, muito sexy).
Só hoje voltei ao tema e consegui terminar. Embora nunca diga que um texto está pronto (essa imobilidade me assusta; palavras mudam tanto quanto nós), aí está:

Querem construir um muro
no futuro da favela
mas o ventre do samba
aborta a tua cela

Abafam a ferida
na beleza da cidade
Sufocam a liberdade
De quem vive a sub-vida

E não tem mais pandeiro
não tem Rio de Janeiro
é só varanda e capital
mas, o morro tá vivo
dia e noite, o ano inteiro
não é só em fevereiro
não é só no carnaval

Querem construir um muro
pros restos urbanos
que sujam o cartão postal
Isolar a senzala
dos donos da casa
e publicar o anúncio:
"safari internacional".

Uma Berlim carioca
Que vergonha seria!
De um lado, chandon
Do outro, censura
Mas lado a lado, a poesia