domingo, 21 de agosto de 2011

Acachapante

M: bom, discorria sobre a importância das primeiras aulas que tive
ou, de como a primeira aula é um fator determinante em minha disposição à uma disciplina
a perplexidade e encantamento que tem surgido desse primeiro contato
(fora Lógica, rs)
pq aquilo não é pra mim, definitivamente.

T: rs, concordo
e acho que, precisamente esse termo que vc empregou
"perplexidade"
reflete talvez o q os gregos sentiram
diante da mesma descoberta

M: gata, vc não tem noção do que foi a minha primeira aula no curso, eu nem dormi a noite

T:haha, intenso...

M: fiquei atravessada por essas sensações, e "precisei" escrever uma carta na manhã seguinte
mas tb foi covardia
pq a primeira aula que tive foi de Filosofia e Literatura
e daí o cara 'abriu' a aula com um fragmento da Clarice, ACACHAPANTE.
eu vou te mandar depois

T: nussss
manda por agora... não tem por aí?

M: tenho
leia, e depois discutimos as impressões

Clarice:

----------------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

É uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido.

Um comentário:

Tainá disse...

T: SENSACIONAL

M: nééé
e me toca, particularmente, aliás
não só a mim, a todo estudante de filosofia
que em algum momento resolve lançar mão dessa "terceira perna", que lhe dá sustentabilidade
segurança
estabilidade
e a angústia que envolve isso
é uma mutilação
enfim, eu nem sei qual dos parágrafos me arrebata mais, honestamente

T: sim
"uma mutilação", exatamente

T: gosto quando diz: É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

eu vejo muitas pessoas nesse parágrafo
é incrível como preferem uma mentira que dê sentido
a um fluxo de possibilidade instável, mas intenso.