terça-feira, 10 de maio de 2011

Do perigo e sobre

Quisera eu que andasse com blusa de caveira e um aviso no pescoço. Tal qual os frascos dos venenos do laboratório, quisera eu poder dar nome às tantas entorpecências que me causa.
Quisera poder embalar essa boa droga que você é e vender seu charme pelas esquinas, como se não me importasse com quem te compra. Como se quisesse compartilhar com os pobres que andam sem prazer pelas esquinas a pontinha do gozo que me desponta. Quisera eu não te querer por inteiro; quem me dera que bastasse querer meio.
Quisera eu que, quando cruzasse as pernas, um alarme sonoro gritasse e, tal qual uma sirene que anuncia a urgência, me arrancasse do estado de desatenção que a pressão das suas coxas acomete.
Mentira. Quisera nada.
Quisera eu que cruzasse de novo, isso sim. E em silêncio, com esses olhos de sirene que só você, gritando uma urgência que o calor já anuncia. Quem dera.
Quisera eu que fosse meu esse seu ar de quem quer mais. Porque, em mim, já jaz o ar de quem quer tudo.
Quisera eu que a música baixasse, a luz não fosse tanta e se conservasse ainda mais esse mistério; quisera eu ser penumbra e te deixar em tato e só. Quem dera que me tateasse às cegas e traçasse em mim o caminho em que se perde.
Quisera eu que me pedisse mais.
Como quem tem sede, muita sede, e bebe sem respirar a água que põe com pressa no copo - metade ambiente, metade gelo. E, quando termina, diz de uma vez: Outro. Quisera eu que, sem pressa, mas com tamanha avidez bebesse meu corpo - metade serpente, metade zelo.
Quisera eu mais duas garrafas, três, pra ver descer pela garganta os nãos que restam, com os segundos e os ponteiros do relógio. Ver sua boca colorida no último gole, denunciando a liberdade.
Quem dera que o passado perpasse e permita que o presente enfeitice.
Quisera eu que me desse em fogo a outra face.
E que me desse mais.
Com vontade. E de novo.
E me desse todo o dia, um pouco além desse perigo.

4 comentários:

Moreno disse...

Quisera mesmo poder ter em mãos o que só pode ser tocado através do pensamento.
Acertei? rs
Beijão

Tainá disse...

rs, mezzo... a utopia não é de se inspirar assim. Há que ter qualquer coisa de empírico nesse lance de toque e de pensar, pra temperar, você sabe. Bj

Thaís disse...

Gostei muito!

b. girauta disse...

quisera eu que não me conhecesse..