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domingo, 15 de setembro de 2013

Xamã

falar a língua
da libido
extrair dos seios
a primeira seiva
da manhã

anoitecer
no meio da sua
selva
traduzir teu breu
por entre dedos
de xamã

provar a polpa
do seu suco
suar as gotas
do teu beijo
marcar suas linhas
com meus traços
de afegã

afogar
nossas tardes
de domingo
preparar
a liturgia
derreter na boca
a disciplina
de uma cristã

acordar feliz
em plena segunda-feira
achar bonita
a sua loucura

meu bem,
foi a maça
que curou eva
verás amanhã:
é a loucura
a cura do divã

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Eu gosto do palheiro (versão final)

não uso vírgula
para separar interesses
eu como de tudo
eu gosto é do palheiro
e não vou procurar agulha
nenhuma

eu não sou garimpeiro
só uso óculos escuros
mal sei peneirar
desejos
e não uso vírgula
para separar interesses
eu gosto de palavras
intermitentes
e você odeia
esse meu jeito

eu te quero assim
mas não vou procurar agulha
nenhuma
eu não sou garimpeiro
tampouco muito gramatical
talvez eu seja
mesmo
pedra bruta
e você
poderia ser
um parasita mais sensual

meu amor,

não vai ser
nada bom
partir
eu não uso vírgula
para separar interesses
em cada ponto
uma saudade
saudade é coisa que mergulha
na vontade
de ser inteiro

descobri que sou metade
eis que estou
garimpeiro
nessa vida de agulha

domingo, 24 de junho de 2012

No papel da saudade

Eu sinto, de você
uma saudade crepom
que me encapa a carne
em cada curva que anoiteço

do tempo, essa saudade
um tempo que mastigo
como os andarilhos da Bolívia
nos trilhos do trem da morte
mastigam coca pra não explodir

eu como você
eu como o nosso tempo aqui do alto
na montanha onde me escondo

onde não tem amor,
não tem torta de limão,
é só o tempo pra mastigar
e nem 2 mil pés
no meu pulmão
sufocam tanto quanto essa saudade

Eu queria que você soubesse
que eu te amei sem hora
e tanto
que me atrasei

Eu queria esquecer
essa sua boca linda agora
mas minha saudade crepom
me tinge de amarelo o passado
e grita tanto
que eu quase nem vejo
a sua boca
salivando
outra boca

terça-feira, 1 de maio de 2012

Feitiços da chuva


faz algum tempo,
chovia
eu era lenha,
lareira,
aquecedor,

um corpo qualquer
mais um,
dois,

fervendo

em cima
da mesa
borbulhando
as canecas
aquecendo
as banheiras

ah!

faz algum tempo
no fundo
eu era fria,
tão fria,
que tinha medo
de congelar
quando chovia

hoje chove
estou velha e surda
me basta um lençol
e suas orelhas
aquecendo
meu travesseiro

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Verso do criado mudo

por dentro do armário
os velhos vestidos
estampam bolinhas
de naftalina

do lado de fora
está um barato:

você

sai
daqui

enrolada
na cortina

terça-feira, 27 de março de 2012

Por amor ao contingente

o ser
em si
é um
ah
cidente
aquilo a que se chama
"Homem"
não pode deixar de ser
"Homem"
sem deixar-
SE

ah
um brinde aos conceitos
sexistas
!

aquela que se chama
"mulher"
pode deixar de ser
"homem"
sem deixar de ser
"SE"

às 7 da manhã
descubro:
já deu
meio-dia

ontologia,
epistemologia,
hedonismo
e
metade do mundo
está atrasado

que diria Galileu,
que quase morreu
torrado?

filosofia é uma cinza
que
queima
no
breu;

o ser
em si,

é um achado



27/03/2012

Palestra sobre a questão da verdade em Leibniz.

sábado, 24 de março de 2012

Escuta

cuidado, rapaz
na corda-bamba do trapézio
não sobe qualquer pé

cuidado, rapaz
o segredo de não cair
de
mo
ra
já dizem lá no circo

o segredo de não cair
é gostar muito, rapaz:

só quem ama
equilibra

terça-feira, 13 de março de 2012

Nunca e mais

Você se foi
levando nas costas
um pouco de nunca
E MAIS:

Aquele imã de geladeira
que eu gostava tanto
e os cds da Janis Joplin
que a gente colocava
pra suar

Você se foi
levando nas costas
as chaves da porta da frente
o cadeado da porta de trás
um pouco de nunca
E MAIS:
os segredos
da porta de dentro

(segredos arteriais)

Quando acordei
quis me ver,
não era mais eu:
você se foi
levando nas costas
minhas digitais

Todo o dia morre um dia.

Ai,
que dor,
que medo eu tenho
desse nunca mais.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Imperativos

Larga:

meu poema,
minha cabeça,
e a ponta dessa lança
que você abraça

Esquece:

o meu pra sempre,
o meu passado,
essas mentiras,
e o gosto daquele beijo
no meio da rua

Lembra:

a minha mão,
procurando a tua,
dentro do casaco,
a tua mão,
procurando a minha,
em todos os rascunhos

Toma:

meu Poême,
meu presente,
meu futuro,

toma meu tempo,
quebra meu relógio

Abre:

os olhos,
a porta,
as pernas,
abre a boca e diz que quer
que eu fique

Fala:

que me ama
que te falta
meu poema,
minha língua,
e o gosto daquele beijo
estalado da sua

Cabe:

no meu abraço,
na minha vida,
e no meio,
das minhas coxas
que são tuas

Lava:

essa louça,
essa mágoa,
esse orgulho,
essa saudade que só ela

Volta:

pro meu colo,
pro meu poema,
pro meu futuro,
pra chuva daquele beijo

Faz:

daquele jeito,
como se fosse a última

Faz pra mim:

um desenho de camelo,
uma torta de limão,
um filho, dois,
uma pose renascentista,
minha flor,
o que pintar por aí

Guarda:

cada letra,
cada carta,
cada coragem
de viver
guarda

Luta:

quando doer,
se estranhar o espelho
e não souber mais quem é
quem

Recomeça:

todo o tempo te espera
sem pressa
agora

Ouve:

meus imperativos se confundem
entre o sim e o não
me sinto estúpida,
não faço sentido

Olha:

se você canta músicas
que não existem
antes de dormir,
eu acho lindo;
o nome disso é
inspiração
mas sou tão dura comigo
quando esqueço a coesão

Me ajuda:
a perder os sentidos

Diga baixinho assim:

eu te amo,
isso é uma janela.

Eu digo assim:

eu te amo,
isso é um martelo.








Veja só:

somos realmente felizes
quando a incoerência
não dói.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Universo é aqui

tudo talvez seja
quase nada

tudo é muita coisa,
menina,
tudo é tanto
que nem se sabe

eu tento o tudo:

chalés,
filés,
hotéis,
mil e um acarajés

eu falho o tudo:
nem no plural cabe

mal me escapa
já tento tudo de novo
no singular, talvez:

carro,
casa,
sexo bom
e
jazz

...
...
...

falho de novo:
tudo pode ser

uma massagem
nos pés

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Se você parar

se olhar bem o relógio
ainda cabe um poema
ali no meio
entre um traço
e outro
traço
cabe até
um amor inteiro

se você parar
e olhar bem o relógio
cabe

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Eu quero comer suspiros I

O encontro com uma inspiração é um suspiro
do tempo.

Vez ou outra acontece,
no caos das horas,
o eco de
um minuto que demora
mais do que deve durar

Não se engane:
isso é aflição.

O encontro com uma inspiração é um suspiro
do tempo.

É o enamorar-se de uma imagem.

É viver o despontar de uma paixão
Diferente.
Que mais quer olhar
Do que ver.

Entende?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O que a língua faz com as pernas

três pares de pernas
perambulam
pelo quarto

é madrugada;
a noite chupa
o vento
geme
a luz da lua
aquece

os três pares de pernas
ainda perambulam
por um quarto
que flutua
agora
vê;

a 8 pés de altura
voa o quarto
sem parede!
sem janela!

olha,
como mexe;

esse quarto
sem tranca
sem sentinela
enlaça a trança
dessas pernas

num rasante,
por sobre uma viela
param os pares
quando ouvem a baderna:

"vê, como é farto!
são três pares de pernas
que perambulam
pelo quarto!"

"mas que quarto?" - pergunta o leitor

"que quarto flutua?"

"que quarto não tem parede?" - esbraveja, indignado

pois justamente a ele -
e a mais alguns,
que não saíram
das cavernas -

responde o povo
em coro:

"meu senhor,
o quarto era mais um par de pernas!"

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dedilhando entrelinhas

só dedos
não são nada
mais que dedos
detidos
num continente de
corpo e delito

(dedos reclusos
não devoram
como um dedo
perito)

um bom dedo
começa na boca
e na voz
rouca
ao pé do ouvido

(um dedo só
não é dedo o bastante
se esquece de respirar)

o bom dedo
morde

o pescoço
distrito capital
nesse descaminho
é o endosso e o isqueiro
que inflama o olhar vizinho quando grita:

o bom dedo é um corpo inteiro

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Que sejam mais tristes, pelo bem dos maus

um bom poeta ruim
não vale nada
até encontrar
um leitor doído

coração na ratoeira
lê poesia
de segunda
feira
e gosta.
faça um favor pro poema:
machuque um pouquinho
essa geleira, sim?

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Quando o poema fala

conversas mal coaguladas
pulsam na palma da mão
palavras transparentes
transplantadas
ainda quentes
sangram
a palidez do papel:
vida nova em folha
desenha segredos
com letras de forma

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Design

meio dia
é hora dos olhos
almoçarem
corpinhos desfilando
mas tem muita roupa
no menú
tem
terno
meia
calça
jeans
rasgado
eu até gosto
mas é muita roupa

bonito é ver
roupa com vontade
própria
você sabe como é
você tem dessas
põe a calça
ela aperta
você tira
já pensando
em emagrecer
mas é mentira
e ninguém desconfia:
a calça aperta
pra você
ceder
certo dia
eu vou ser
seu vestido
baby
já que é muita
roupa
então
põe a cinta
liga também
baby

já que é muita roupa
roupa,
melhor sem

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pesos e medidas

você não quer mais
eu não quero mais
mas foi assim:
sem mais nem menos
mas foi assim:
muito

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Querido papai

passei o dia a comandar uma escavação
por todas as entradas minhas:
marcas, linhas, vãos,
e até os cantos que calo
em busca de algumas palavras
que pudesse dizer a esse homem
cujo aposto pode ser
"meu pai"

eu juro que queria ter
um rancor qualquer
e lágrimas
de uma tristeza que te segurasse pelos pés
quando estivesse quase dentro
do meu poço da indiferença.

nunca te falei,
mas rego esse poço todo o dia
toda a vez que encontro
uma existência de padaria
e você nunca viu a cara que faço
quando falam sobre o tempo na fila do pão
porque não sabem nada sobre o silêncio

eles falam
e você só quer tomar seu café
e ver o tempo passar
na borda da xícara que esvazia.
então respira
e joga a fila inteira,
de um golpe só,
lá no fundo do poço da indiferença.

imagina você lá, pai
nadando em meio a vários estranhos
absolutamente desinteressantes
que formariam grupinhos
e cochichariam:
"Parece que ela jogou o pai no poço" - diria um.

então eu te esqueceria a cada dia
porque a indiferença é o hall do esquecimento
e você morreria sempre e mais
entre cônegos, credores , coronéis
e toda essa gente
que não cheira nem fode
e não faz diferença
quando respira na fila do pão.

mas você,
você não, você foi intensamente covarde
e os intensos nunca caem no poço, pai

essa sua falta era real, era você
era presença tua
e eu não sei mais qual é
o barulho dos seus sapatos chegando em casa
porque só te conheço pela ausência

o que encontrei em mim
pra te dizer hoje
é que você é um grande sacana, meu caro
mas eu tô me fodendo, pai
e te agradeço
sincera
e calorosamente
por ter me gozado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Gosto de dirigir

eu poderia resistir
a qualquer curva
e resisto
mesmo
quando passam por mim
no curvilíneo Rio de Janeiro
curvas perigosas

eu poderia resistir
e resisto
às imperativas categóricas
que, rebolativas,
são tesão por dever
e confundem os juízos
poéticos
a priori

eu poderia resistir
e resisto
aos incêndios dessa cidade
às pequenas explosões
que te tomam de assalto
e derrubam do salto
os antisociais

há fogo demais nesse asfalto
um fogo de saias
que faz calor de verão
que explode os bueiros
e conclama os bombeiros
à revolução

vibro com essa chama
e resisto
a esse risco flamejante
às curvas sinuosas
temperadas pelos
parágrafos
de Kant

mas passa o tempo
eu acelero
você transpira
só o que me pára
é capotar numa mentira

camuflada ali
no meio do caminho
onde nasce e desemboca
o futuro desse flerte
carioca