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domingo, 17 de julho de 2011

Vontade de tempestade

quando chove em mim e eu transbordo, também o texto se molha. minha alma encharca e pinga eu demais nas entrelinhas. elas pesam.
que pesem.
pouco me importa que essas letras úmidas terminem mofadas, não pelo tempo, tampouco pela gaveta, mas de tanto que carregam do meu eu-afogado. de tanto que me carregam, de tanto eu que essas linhas levam, coitadas.
e são mesmo assim, tão passivas, tão dispostas. basta que me importe em escrever o que quer que seja, numa perspectiva tradicional de organização, que elas surgem. paralelas e constantes, até a perfuração do ponto final. são, as linhas, reféns de qualquer um, de contrato a poesia. de lista de compras a caderno de caligrafia. não importa.
meu bem, só me importam as linhas porque, quando chove em mim, eu transbordo. temo que só por isso elas existam. mas eu disse que temo? pois eu temo porque não gosto de transbordar, você sabe.
transbordo porque quando um, em mim, mil. não há gota, não há um gole, um bombom, tampouco há metade de uma afetação: há dilúvio.
e você, que me afeta, é puro ar em falta, rarefeito, que beija em apneia e retoma o fôlego no perfume dos pescoços onde me procura.
você é nuvem, que passa delicada pela minha janela, dançando no ritmo do vento. acena do céu com braços de algodão e derrete em seguida, na minha frente, para reaparecer na janela de outros olhos. que seja. que seja breve e que passe. mas passe pela minha janela.
sabe, você é nuvem condensada, vez ou outra. falo daquela enorme aparição cinza que se forma no final dos dias quentes ou num inverno atípico no Rio de Janeiro, como o que estamos vivendo por agora. sei que o tempo andou fechado por aqui, mas me pergunto se você viu a lua linda por esses dias. era um céu limpo, em plena quinta-feira, de um azul intenso, que contrastava, sacana, com o brilho desse satélite libidinoso, peter pan das luzes.
mas dias como esses são claros demais. há que ter meia luz, há que saber ser nuvem condensada, meu bem. saber fechar o tempo e encher a cidade de um cinza que sinaliza seu desejo de tempestade.
até que, por fim, você chove em mim.
e eu transbordo.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

God sell the queen

Please.

sábado, 23 de abril de 2011

Dest-erro.

Eu quero um trecho que marque a cara do meu erro, para que eu nunca mais esqueça:

Meu erro é filho da puta. É grande, é gordo e cheira mal; meu erro é assim, impossível de me passar despercebido. É um erro do caralho.

Devo dizer, caros, que a pior parte do meu erro é ser um bis. É um bis de um show ruim. É uma reincidência, que carrega uma incapacidade torturante.

Meu erro é um texto péssimo. Mas é meu. E é tão meu que se entranha e se faz presente em cada extremidade. Mais ainda dentro.

Vou contar:

Meu erro montou acampamento no meu coração. E quer terra, veja só.
Mas, como dói assentar um erro! Você já tentou?
Dói devagarinho.
Porque ele remexe a terra com unhas grandes e destrói o que estava construído antes.
Um erro não faz carinho, nem fala no ouvido; ele arranha.

Que seja.
A mesma veia cava da angústia, reconstrói.
E talvez sua função, meu erro, tenha sido o desterro.
Tenha sido amaciar a terra desse terreno baldio que é o meu coração.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Maria Gadu

"Vamos prum lounge, beber um vinho safra ruim e conversar sobre a tv?"

Porra, quer coisa mais broxante?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ansiedade

João, meu queridíssimo, diagnosticou meu mal em uma de nossas conversas literárias. Dizia a ele que há séculos estou para terminar um conto e não consigo avançar porque, durante a introdução, só penso no clímax! E, de tanto pensar no clímax, termino por achar a ideia estúpida. Oh, céus, oh vida. Por que não escuto a Clarice, que dizia nem sequer reler seus textos? Também sinto dificuldade de terminar o que começo e me concentrar numa coisa só.
Mas, uma consequência positiva da ansiedade é que, quando mal se termina de pensar no problema, já começa a busca incessante por soluções.

Assim, penso consideravelmente em voltar para a yoga: aguentar a dor do músculo até o trinta, enquanto o professor, com voz de veludo, ainda separa as sílabas do "dois", é Lexotan.

Ansiedade é o mal do século", disse minha mãe. Por isso estão todos ricos, esses sádicos!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Bate

(Não pretendo dar uma de Fernando Pessoa e começar a escrever acerca do quanto tenho sido covarde. Sou do tipo que não gosta de divulgar fraquezas; não de forma descritiva, assim, tão clara, em 1ª pessoa. Mas, se pretendo voltar ao blog e, mais do que isso, voltar a escrever de forma necessária, é preciso romper este lacre. Ainda que seja posto como uma nota de página, há que ser dito e terminado. Não há assunto proibido.
Devo dizer, portanto, que tenho sofrido de algo que pode ser expresso por "falta de foco". Recuso-me a falar em "falta de inspiração". Aliás, tem sido até mesmo um período produtivo sob esse ponto de vista: vizinhos curiosos, rompimentos, alguns porres, boas festas...
Mas, fato é que não consigo terminar um texto que corresponda a uma de minhas inspirações desde meu último aniversário - movida por uma irritação digna de um inferno astral.
Penso que talvez minha capacidade crítica tenha minado minha confiança e vejo a Filosofia caber perfeitamente nos dois corpos que Sócrates atribui ao prazer e a dor, com uma só cabeça. Aliás, a única forma que me parece interessante falar sobre o que dói é, de fato, se o associo a algum prazer.
Por isso, e só por isso, ofereço minha cara literária ao seu tapa; bate. E, a cada estalo, mais me inspira).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

18

É o tempo que te tem, menina.

o tempo me diz que rir da juventude é atestado de estupidez.

as décadas ridicularizam as piadas etárias, enquanto, você, tão moderno, enche a cara e abraça a constituição.
veste a carapuça da caretice. chama a polícia, porque tem menor bebendo uísque, enquanto você bebe alcatrão.

Digo, pois, que o maior problema de quem confunde maturidade e maioridade é o fim do horário de verão:

eis que, o desagradável da vez, percebe que uma hora não lhe faz a menor diferença.

é, nada mais, do que um tempo a mais pra pensar nos verões que passaram e nas novidades que parecem tão repetitivas hoje.

diante disso, ver você, que valoriza o florescer, ter uma hora a mais para ser interessante, é foda.

.............................

No tempo que passou, a maturidade foi tecida com cuidado, como vejo você tecer a sua, menina.

certas armadilhas nos fazem amadurecer rápido, você muito bem sabe.

o tempo fez de nós velhos jovens.

Velhos jovens que nauseiam diante da limitação imposta por valores morais antiquados, reforçados aos quatro cantos por pessoas pouco interessantes.

enfio nelas, agora, o gosto da maioridade.

e você, menina, goza.

olha como giram os ponteiros, na cadência que você gosta.

no atraso do relógio, os que não gozaram na hora passada são os mesmos que fazem piada da juventude.

então goza o tempo.

porque é o tempo que te tem, mulher.