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segunda-feira, 12 de março de 2012

12/03/2007

Há 5 anos esse era meu primeiro dia no Pedro II. A maioria das pessoas muda completamente de vida quando entra para a faculdade. É preciso guardar essa data, porque, na verdade, minha vida começou a mudar completamente aqui. E ainda vive os reflexos. Foi bom. Foi bom demais. Agora chega do eu-de fato e vamos voltar ao eu-lírico, que é quando os pés não estão trocados e o autor encontra algum conforto quando se relê.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Amigos e presentes


Para além do que já é lugar comum, ganhei de aniversário uma antologia poético-erótica, um livro sobre Sade, um vestido preto-mulherzinha, uma cachaça do Norte, uma cartomante (pois é), mais um que provavelmente também é curioso, mas só vou saber quando Júlia voltar de viagem e... um poema do João. É realmente uma sensação incrível ganhar um poema. Sinto que em qualquer ocasião vou ler e me sentir amada. Seu poema é um abraço, meu amor. O tempo voa, olha só quantas histórias nós já temos! Gosto do teu verso, gosto do modo passional como encara a inspiração, como encara a vida. Você agarra a poesia. E come. E eu te saboreio, te admiro e te amo.

Presente

Não tinha dinheiro pra compra presente
Certos limites são incongruentes
Ofereci afeto como pagamento
O filho da puta disse: Só lamento!

Procurei na fresta da minha janela
Por baixo das pernas, no vestido dela
Com verso rimado, que coisa mais brega!
Fiz o meu presente pra morena fera...

Fera
Ferra
Fera
Mim

Pêra
Péra
Que eu já vou

Leve
Leva
O meu afeto

Quebre
Quebra
Cada versinho

Tem morena no samba
Tem morena na cama
Morena na areia
Me morenar

Tua pele é o segredo
Tua boca é a chave
Teu verso é o porrete
Morena morenar

A roupa, a comida
O cigarro e as cinzas
A cerveja na mesa
O vinho na lua


O futuro te espera
O passado aguenta
O presente é o presente
Morena

João Victor

24/02/2012

(J., escolhi essa foto da Bruna porque, sem dúvida alguma, é uma das que mais mexe comigo. Quando vi, coincidentemente, foi logo depois que escrevi algo como "você é um barco a motor, louco pra ficar à deriva". Acabamos chamando a foto de "à deriva". Eu acho mesmo essa imagem linda, um pouco lúdica também, muito intensa. B., quero guardar essa lembrança aqui, embalada pelo poema do João, como um certo presente também, com a certeza de que admiro muito o seu olhar).

Tutorial para cansar

Fale aos berros.
Só fale de si.
Diga o quanto você é poético.
Diga o quanto seus versos são profundos.
Informalmente, me dê aula sobre algo que conheço bem.
Comece a falar sobre minha produção sem conhecê-la, começando bem assim:
"Você que é mulher, deve ler Clarice Lispector".
Acrescente, ainda sem conhecê-la, como um bom conselho: "porque é importante ter um estilo, e isso você só vai aprender escrevendo."
Fale compulsivamente às 7 da manhã.
Ignore a subjetividade de seu interlocutor, seja imediatista, queria respostas quando ele estiver lendo.
Toque com as pontas dos dedos enquanto fala, ou dê tapinhas. (palmas das mãos ainda são delicadas).
Haja como se aniversário e comemorações não fossem importantes.
Chegue atrasado e justifique com uma situação perfeitamente evitável.
Diga que fiz algo que não fiz.
Diga que falei algo que não falei.
Jogue responsabilidades na minha caixa de emails sem dar satisfação.
Ignore ironias, como se seu interlocutor não fosse esperto o suficiente para aquela sacada.
Seja grosseiro, sem nem estar com fome.
Recuse gentilezas.
Haja como se soubesse muito da vida, de preferência se esquive de algo besta apoiado nessa justificativa.
Seja violento com crianças, usando ameaças como vírgulas.
Seja folgado sem ter intimiidade; de preferência acabe de me conhecer, pare para conversar com um desconhecido e me faça esperar.
Assuma uma posição política que você não conhece.
Confunda gentileza com paixão, um flerte com casamento e uma provocação com grosseria.
Ignore a poesia cotidiana.
Faça piadas preconceituosas insistentemente, fora de contexto.
Ressalte nas pessoas características que as deixam inseguras.
Chame alguém para sair sem a menor noção de lugar.
Não seja recíproco.
Haja como se a vida fosse muito longa.
Tenha muitas reservas, sem charme, como quem belisca um prato estranho.
Critique o trabalho de alguém gratuita e cruelmente.
Diga que Filosofia não dá futuro.
Ponha o rótulo de "utopia" em tudo o que você não acredita.
Repita sempre: esse mundo não vai pra frente.
Use a idade para desqualificar a posição de alguém em público. (uma das campeãs da lista)
Não leve a juventude, os doentes, os psicóticos, os deficientes e as crianças a sério.
Fale coisas extremamente desnecessárias sob a desculpa de ser sincero. (também uma das melhores)
Diga com toda a firmeza que "x é natural do Homem".
Cochiche no cinema.
Haja como se soubesse exatamente o que eu sinto.
Seja absolutamente inflexível sobre tudo o que pensa.
Oscile, mude de humor com facilidade.
Faça tudo isso e ainda, se puder, numa segunda-feira de manhã, chame minha atenção como a gentil secretária que disse:
_ O papel do pedido ou sua identidade.
_ Aqui. (mostro a identidade)
_ Você precisa aprender a guardar papel.

(silêncio)

_ A senhora me conhece?

Aiai, é mole ou quer mais? Texto idealizado exclusivamente para imaginar que os cansativos do mundo não são assim, mas acabaram achando o tutorial no google e decidiram me sacanear. Uma dose de egocentrismo não vai mal nessas horas, vá lá...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sobre "Os vestidos do tempo"

A fila era mesmo enorme, mas o que me chamou a atenção foi o sujeito atrás de mim ao telefone. Textos têm vida própria, eu deixo, nem de longe pretendo encerrar a liberdade de uma história.

Ocorre que eu ia escrever sobre ele, o texto tomou outro rumo, mas não esqueci. O cara mesmo não mexeu comigo, eu mal olhei pra ele. No entanto, ouvi partes da conversa, já que o espaço era pouco e ele ficava imediatamente atrás de mim.

É que em meio a um calor infernal, essa fila imensa, ele conversava com a pessoa do outro lado, num tom meio rabugento, um tom que me chama a atenção, porque me identifico, assim, beirando a falta de paciência, mas ainda com certa delicadeza, sobretudo porque a pessoa do outro lado devia ser querida. Eu diria que era a esposa, namorada, namorado, não deu pra sacar se era gay, mas acho que não.

Ele mantinha o diálogo com essa outra pessoa, e eu ouvia, entre sons pouco compreensíveis e manifestações do tipo "érr...", "pois érrr..."
Já ao final da conversa, depois de passado algum tempo e nosso lugar na fila mal ter avançado, ele diz:

_ Olha, parece que vai demorar aqui, põe a cerveja pra gelar?

Era segunda-feira. Fiquei pensando que prazer mais delicado é esse: ter alguém em casa te esperando com uma cerveja gelada.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Notas de um eu-lírico de vestido

É madrugada de mais um fim de uma semana. Apesar de me sentir exausta, a noite de tempestade me convence a adiar um tanto mais o sono. Não é sacrifício: a madrugada é linda, a chuva é linda, e eu ainda tenho fome.
Hoje é sexta, ninguém foi ao mercado. Podia mesmo era ter umas sobrinhas do almoço, o que se fez dele?
Escolho as torradas. Pelo menos tem geléia de amora. Lembrei que almocei correndo na rua, não ia ter comida mesmo. É até bom: a torrada integral me lembra que tenho mãe. E que ela faz dieta. É mesmo muito doce essa lembrança, mas faço votos sinceros de que ela lembre que tem filha em outras circunstâncias. Café amargo é melhor do que torrada integral.
Hoje foi um dia de conquistas: saí de guarda-chuva e voltei com ele. Acredite.
Tenho a séria desconfiança de que sou responsável por uma gorda porcentagem do faturamento dos vendedores de guarda-chuvas do Rio de Janeiro. Eu esqueço sempre. Mas hoje não. O que foi ótimo, porque passei horas esperando um ônibus, protegida pelo meu guarda-chuva poderoso. O que aconteceu foi que troquei os esquecimentos: lembrei disso, esqueci daquilo. Daquilo" é o banco. Esqueci de passar na porra do banco.
No fim das contas, encontrei um táxi com débito, mas ter paciência ensopada seria bem mais difícil.
A porta do banco sempre trava comigo. Só melhora quando estou de vestido. Juro. Na escala das vulnerabilidades, vem o vestido, depois o texto. Ou talvez o texto antes do vestido. Depende. Mas, no fundo, deve ser porque é muito mais difícil esconder qualquer coisa num vestido. Qualquer coisa cortante, fatal. Fica tudo muito mais claro num vestido; a porta está aberta.
Pois bem: foi um dia de conquistas. De re-conquistas, contrastes, perdas. Por isso a avidez por papel: Eu não posso esquecer.
Dentre os motivos que me levam a escrever estão três: seduzir, lembrar e aprender a morrer. Dentre as pessoas que me seduzem estão três: as que também quero seduzir, as que quero lembrar, aquelas com quem quero morrer.
Hoje foi particular porque tomaram forma algumas pessoas das quais quero lembrar, mas não sei se quero mais morrer com elas. Encontrei inúmeras inspirações em potencial, mas envoltas agora num charme tão distante...
Inspiração é coisa de dentro. Isso tudo de "in" quase sempre pressupõe dentro, é certo. Inspiração distante é contradição. Inspiração é coisa de quem está "sendo agora".
Enquanto escovava os dentes, pensei em escrever uma carta ao meu tio avô. Não sei como, ele me pareceu tão presente. Mas que estúpido escrever a um morto! Talvez Por ele, tal qual sublinhou Deleuze, mas tê-lo como destino eu não sei.
Curioso ter lembrado dele. Foi a primeira morte que vi mais perto, um soco na garganta, mas uma partida que não chorei.
Minha amiga vai morar em Lisboa quarta-feira. Disse tchau a ela hoje, até breve, e foi tão estranho que bebi vodka. Dei um abraço quente, e senti um aperto no peito. No fundo, me encanta essa morte consentida, essa vontade de mudança, essa coragem. Não cabe o choro: ela vai casar na terra do bacalhau, mal cabe em si.
O Rio continua lindo, mas meu inferno astral começou com três prédios caindo. Bebemos cerveja no trabalho, como quem esquece. Não deu. A madrugada avança, a vida diz que qualquer coisa pode desabar a qualquer hora. Agora, sinto algumas pedras no meu sapato. O prédio aqui ainda está inteiro; é que me bateu forte uma saudade do amor.

domingo, 22 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Seu juiz, não me prende, é poesia

A mulher disse que o cara tem Alzheimer. É duro. É mais duro ainda porque ela também assinalou: demência.
Demência é uma palavra muito cruel. Sempre me caía mal quando ouvia alguém dizer que fulano é demente, mesmo se for esse o termo certo para o tal do diagnóstico, seja lá como se chama isso. "Certo" é engraçado. "Certo" é massagear os ouvidos, ora veja. "Demente" não massageia nada.
A filha dele mora na Lagoa, mora com ele. O coroa tem mais de 85 e tem Alzheimer, eu já disse isso, eu sei, é só pra ficar bem claro que ele tem Alzheimer, você entendeu, certo? Porque quem disse isso a princípio foi a advogada, quando abriu o processo com o pedido de interdição.
Uma interdição pode acontecer diante de uma doença como essa, que faz uma caneta na mão virar uma verdadeira arma de auto-destruição. O sujeito perde os direitos políticos e, sim, outra pessoa responde por ele. Era isso que a filha do cara queria.
O juiz mandou o perito dar uma olhada na situação, pra ver se não era caô da garota pra ficar com o dinheiro do velho, isolar ele num quarto e dar festa pelo apartamento inteiro em plena quarta-feira, essas coisas que eu e você sabemos que podem acontecer.
O processo caiu na minha mão sem querer, eu nem flertei com ele, veio de mão beijada e eu li despretensiosamente, porque me interesso pelo outro, porque sou curiosa, porque gosto de ver a história acontecer. A surpresa, seu juiz, foi a poesia da demência.

(...)

Relata que o avô faleceu aproximadamente em 1962, com 61/62 anos.

"sequela da 2ª guerra, meu avô foi prisioneiro de campo de concentração na Rússia por 4 meses."

Trabalhou como gerente de obras, gerente de hotel, carabineiro. Ao que o saiba, foi tababista, e foi elitista:

"de vinho, com certeza".

Perguntado quanto dá 7+15, diz:
"7 mais... 15... 7 mais 15... acho ou não... 7 mais 15
...
...
de que sete?"

(Lúcido, meu caro psiquiatra. De que 7 o senhor fala?)

São 15hrs 02 min e pergunto se sabe qual é o meu nome, ao que diz:
"o seu nome?
Eu to sendo agora...
e você tá aqui."

(Não tem sigilo, seu juiz. Tem poesia aí em cima.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Primeiro poema do ano

O primeiro poema do ano foi um abraço. Isso é um texto doce. A palavra é tão pouca, porra, que inveja da imagem. Como é que eu posso falar pra você que o vento do amanhecendo, às 5 ou 6, batia nos cabelos da sacada, brincava de nós, enquanto as nuvens carregadas pintavam de cinza claro o céu da noite que se despedia?
Eu amo a palavra, não me entenda mal, é só mau humor de madrugada. Porque o primeiro poema do ano foi um abraço, e é difícil escrever depois de ler o Mundo, poeta filho da puta.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Humano, demasiadamente humano

Pois é, Drummond, o mundo é grande e cabe nessa janela sobre o mar.
o mundo é grande
e eu também canso.


"O amor deseja, o medo evita. Por causa disso não podemos ser amados e reverenciados pela mesma pessoa, não no mesmo período de tempo, pelo menos. Pois quem reverencia reconhece o poder, isto é, o teme: seu estado é de medo-respeito. Mas o amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, sobreponha ou submeta. E, como ele não reverencia, pessoas ávidas de reverência resistem aberta ou secretamente a serem amadas."
(Friedrich Nietzsche, "Humano, demasiado humano", Cia de Letras, p. 289, aforismo 603, ano 2001, São Paulo)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cruzes credos

Um trio de marombeiros cantando a bíblia na rua do ouvidor. Horário do almoço, sol. Imagens difíceis de esquecer.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ah, lumiar...

Um Dois, três. Verde. Rede. Rio. Nós.
Dois. Mutuca. Cubano. Roupa de anão. Mais um, dois.
Alambique. Melaço. Vovô com cajado. Dois. A capoerista.
Nós.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Das dificuldades da doçura - Parte I

_ Sinto sua falta, vez ou outra.

_ Recíproco.

_ Ah é? Por quê?

_ ... Porque você é uma boa companhia e diz coisas nas quais fico pensando quando você vai embora.

_ Entendo. Sendo assim, posso te indicar alguns livros que produzem o mesmo efeito e param de falar de maneira mais fácil.

domingo, 25 de setembro de 2011

Bukowski na rede de saquarema

CONFISSÃO
(Bukowski)

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te amo

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

EM OFF

Hoje fiquei impressionada com a intensidade do relato de várias professoras primárias sobre a experiência de incorporação da reflexão crítica (chamada no grupo de filosófica) no cotidiano escolar de crianças.
Falei: me parece que vocês coordenam a experiência, objetivamente, mas também participam de outra experiência subjetiva, ao mesmo tempo. Difícil dissociar.
Uma delas disse, em seguida, frases que só colaboraram para que eu continuasse a pensar que essa relação de provocação, fomentação de conhecimento e crítica, é FÍSICA.
Ao final da sua fala, uma das professoras falou sobre a mudança de comportamento das crianças e carimbou uma imagem em mim: o aluno-problema, desinteressado, meses após participar das tais "experiências", que flertam com a Filosofia, batia na cabeça de maneira grave e dizia: "deixa eu pensar, peraí. Espera, eu preciso pensar."

Enquanto repetia essas frases e imitava a expressão do menino, juro que ela chorou. Agora à noite eu só preciso de uma bebida tão forte quanto essa cena.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

P de perdeu, percebe?

Perdeu um amor e comprou o jornal. Pagou com duas moedas e pediu o troco. Procurou o isqueiro no bolso esquerdo da calça, onde sempre estava. Problema: esqueceu com a primeira com quem trepou pra esquecer o amor que partiu. Perdeu duas vezes.
Pediu fogo ao pedestre que fumava na marquise daquela padaria onde comprava pão enquanto o amor dormia. "Pode ficar com ele", o estranho disse, "Parece que você precisa mais do que eu." Precisava. Poder acender o próprio cigarro e poupar pedidos era exatamente o luxo que pedia naquela tarde pálida.
Perdeu um amor, comprou o jornal e sentou numa esquina. Pousou as notícias no banco do boteco: mais miséria em papel de miséria. Porca essa primeira página: pobres, programas de governo, presídios, presidência. Predisposição zero. Pensou nela. Pensou no peso do corpo dela. Pensou em saudade; não era aquilo? Pensou que se saudade não fosse aquilo não era mais nada. Passou a mão pelo rosto, como quem prepara o terreno à espera da chuva, mas ela não veio. Pior, tanto pior. Pobres desses que têm medo de chover.
Perdeu um amor, comprou o jornal, sentou numa esquina, pediu um café. Parou ali. "Pra viagem?", a atendente perguntou. Piscou e fez que sim.

Deixou seu amor de gorjeta e partiu; pra viagem.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Nietzsche para estressados

Estava numa livraria ontem e, logo quando decidi pedir ajuda ao atendente, um sujeito grandalhão, mas com semblante apreensivo e, sou até capaz de dizer, meigo, foi mais rápido que eu perguntando afobado:

_ Você tem aí alguma coisa pra estresse?

O vendedor - devia ser novo na loja - pareceu muito desconfortável com aquela pergunta, que mais parecia uma confissão:

_ Olha, a gente tem esse aqui ó: "Nietzsche para estressados".

A imagem do Nietzsche, filósofo ácido, num contexto terapêutico arrancou de mim - que acompanhava o diálogo, à espera do vendedor - uma sonora gargalhada.
O grandalhão não pareceu convencido e foi investigar a sugestão, com ar desconfiado e sempre aquele semblante dolorido. Eu, ocupei o atendente com alguns autores que precisei soletrar e, por algum tempo, esqueci do grandalhão estressado.
Quando fui embora, ele ainda estava lá, com uma mão segurando Nietzche e a outra mergulhada numa prateleira que carregava uma placa amarela gritando: "AUTO-AJUDA".
Passei por ele morrendo de vontade de sussurrar no ouvido, baixinho, de modo que o sujeito não soubesse se ouviu de mim ou da própria consciência:

_ Auto-ajuda é masturbação, babe.

sábado, 27 de agosto de 2011

Rastros de agosto

você me voltou no fim de agosto, esse mês de gosto azedo e travessia caiofernandiana:
há que ter paciência e fé, ele disse. voltou em meio a outras angústias, dessas poucas que não levam o carimbo do seu nome nas entrelinhas: como-amo-essas-angústias-que-não-te-pertencem. detesto sentir seu cheiro em quase tudo o que vivi depois do seu pescoço. quero encontrar dores que não são suas, marcas que você não me fez, segredos que não te contei. quero esquecer nossos planos, enterrar nossos futuros, ouvir nossa música (sim, temos músicas) sem pesar (só-que-ainda-pesa).
difícil seguir sozinha o caminho traçado a torto por duas mãos canhotas, mas chove, a terra renova e o dia é lindo pra germinar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Acachapante

M: bom, discorria sobre a importância das primeiras aulas que tive
ou, de como a primeira aula é um fator determinante em minha disposição à uma disciplina
a perplexidade e encantamento que tem surgido desse primeiro contato
(fora Lógica, rs)
pq aquilo não é pra mim, definitivamente.

T: rs, concordo
e acho que, precisamente esse termo que vc empregou
"perplexidade"
reflete talvez o q os gregos sentiram
diante da mesma descoberta

M: gata, vc não tem noção do que foi a minha primeira aula no curso, eu nem dormi a noite

T:haha, intenso...

M: fiquei atravessada por essas sensações, e "precisei" escrever uma carta na manhã seguinte
mas tb foi covardia
pq a primeira aula que tive foi de Filosofia e Literatura
e daí o cara 'abriu' a aula com um fragmento da Clarice, ACACHAPANTE.
eu vou te mandar depois

T: nussss
manda por agora... não tem por aí?

M: tenho
leia, e depois discutimos as impressões

Clarice:

----------------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

É uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Tensão pré-movimentação

Passei mais de uma hora na frente do computador, com vontade de escrever. Tenho mil coisas pra fazer, mas senti necessidade de ficar quieta, refletindo sobre a minha irritação. Fiquei puta da vida com essa passividade e descobri que não sei escrever irritada. Ou seja: me irritei ainda mais agora, porque passei horas improdutivas.
Quase sempre que me sinto irritável assim, preciso de algo novo. Já decifrei. Parece que a mínima inércia me causa tensão, que, porque estou viva e mergulho fundo no que me incomoda, gera algum movimento. Em tempo.

Aí essa TPM transgressora me diz duas coisas:

1- Você tem a história, pode conseguir algumas horas de dedicação e só vai saber se tem capacidade quando decidir começar, porra.

2- Faz outro blog, gata, porque procurar contos eróticos no Google e parar numa poesia, ainda vai, mas procurar abstração e esbarrar em tensão sem conto vai ser foda.

domingo, 5 de junho de 2011

Tempo da beleza

Eu: E a flor?
Ela, sentida: Você comprou tão madura que hoje, quando acordei, ela estava seca e aí eu... joguei fora. Deixar ela feia por aí seria um descaso.
Eu: Claro, você fez bem.
Ela: Acho que nós temos que abrir mão das coisas assim que elas murcham.
Eu: Concordo. É o tempo da beleza.
Ela: Exatamente.