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sábado, 7 de setembro de 2013

Sobre o dia que disse eu te amo

Você pode duvidar quando eu digo que te amo. Pode dizer que eu não amo, e tudo o que você diz, pode dizer que eu não sei o que é o amor, que não é isso que eu sinto, eu falo isso pra todas.
Os poemas sentem o tamanho desse soco. Quem sabe ao certo o que é o amor? Minha cara, talvez, só se saiba claramente determinadas coisas em situações-limite. Tua arma na minha boca, a morte na minha cara, eu saberia exatamente a quem amei. No entanto, enquanto as horas me passam, e o coração bate em compasso, deixe-me explicar, todas as vezes que disse que te amo, falei como quem suspira. Você sabe o que é um suspiro? Um suspiro se diferencia da respiração porque é possível gostar durante.
Falei que te amo exatamente como quem suspira. Falei que te amo enquanto amava, não havia o que se explicar.
Veja bem: eu suspiro enquanto suspiro, e sobre minha respiração o que eu digo é que já respirei, passou por entre a frase. Não te amo como quem respira, o próprio amar se perderia nas facilidades desse automatismo. Já basta de futuro. Te amo enquanto te amo.
O amor também é o modo como eu me abro, assim como o suspiro se faz justamente no modo como se faz. Você entende? Veja se não é assim que te aparece esse fenômeno: é um estalo, uma distração breve, havia uma respiração comum e, de súbido, encontra-se a si mesmo suspirando, e, veja lá, você já está no meio do caminho e encaminha-se ainda a uma manifestação mais espontânea, e já não é uma respiração comum, você sabe disso, algo diferente acontece, e se encaminha para o fim, e esse fim não é trágico, é só gozo. O gozo do suspiro ganha até um gemido, uma espécie de "ah..." contínuo, até que se dá conta, e surpreendentemente; eis que suspirei.
Falei que te amo num suspiro, não como quem já o tinha de pronto, não se faz planos para respirar depois, expectivas, definições, pelo seu deus!, quanto desamor. Falei que te amo, nunca por ter absoluta certeza do que isso significava para mim, para nós, mas porque isso não importava. Disse que te amo porque me percebi subitamente no terreno do amor; eu me percebi simplesmente ultrapassando a fronteira da respiração.
Eu estava suspirando, e isso era o amor pra mim.
É o que importa: não a palavra, mas suas asas.
Ora, ainda assim, duvide: você é atéia para os melhores deuses.

domingo, 8 de abril de 2012

O que é o desejo?

O que é o desejo? Perguntou Hilda Hist, que respondeu na cama, na boca de outros, na poesia, na vida; respondeu vivendo, flexionando o infinitivo, presenteando o verbo, dizendo sim.

O que é o desejo? Perguntam os adolescentes, entre bitocas atrás da porta, amassos no muro da escola e segredos embaixo da cama. Perguntam os jovens, entre o amor eterno, o nunca mais e o só essa noite.

O que é o desejo? Perguntam os químicos, que gastam seus dedos em tubos de ensaio e buscam respostas na acidez da saliva, no sal do suor, nos milagres do período fértil, e tudo isso com luvas, de máscara, ao longe, na ignorância da equação já balanceada que produz mais desejo a partir do elemento-tato; explosivo.

O que é o desejo? Perguntam quase todas as mulheres que queimam, com seus colos vermelhos e os seios atentos; a boca seca e os meios das pernas afogando o próprio desejo enquanto elas perguntam o que é, vai entender, e duvidam!, e vacilam!, e mal sabem que isso tudo é resposta.

O que é o desejo?
Passa o dedo e lambe: não é o que, mas que gosto.

terça-feira, 27 de março de 2012

Por amor ao contingente

o ser
em si
é um
ah
cidente
aquilo a que se chama
"Homem"
não pode deixar de ser
"Homem"
sem deixar-
SE

ah
um brinde aos conceitos
sexistas
!

aquela que se chama
"mulher"
pode deixar de ser
"homem"
sem deixar de ser
"SE"

às 7 da manhã
descubro:
já deu
meio-dia

ontologia,
epistemologia,
hedonismo
e
metade do mundo
está atrasado

que diria Galileu,
que quase morreu
torrado?

filosofia é uma cinza
que
queima
no
breu;

o ser
em si,

é um achado



27/03/2012

Palestra sobre a questão da verdade em Leibniz.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Dilemas

Não sei se compro uma passagem pra Brasília, um Ray ban ou os dois. Tenho muito medo de sufocar em Brasília, mas não é só o Djavan que diz que o céu é lindo, pessoas contam que é realmente impressionante, fico curiosa.
Pensando em Brasília, ouço meu professor de Direito Financeiro dizer em plena noite de segunda-feira: "a vida é muito curta... Com tanto espaço no mundo, a vida é uma poeira, sabe?" Foi com aquela entonação nordestina, bem carregada no sotaque. Ele tem o cabelo bem branco, deve ter mais de 60 anos, embora seja muito jovial, além de doce. "Eu tenho muito orgulho de ser da Paraíba, você vê, a Paraíba é tão importante que todo mundo que é do nordeste o pessoal chama de paraíba".
Achei essa sacada linda, muito "clariceana", ou talvez, "macabéica". A turma adorava a interrupção, bem mais leve do que o orçamento do Estado. Ele terminou, bastante sério, como quem dá um alerta de perigo:

"as paraibanas são as mulheres mais cheirosas do Brasil, visse?"

Saí da aula inspirada, pensando numa história cangaceira; ele no papel de delegado coronelista, algemava uma Maria Bonita pós moderna. Nessa história, o marido era cúmplice, e numa cumplicidade machista, o delegado pensou em deixar o sujeito livre, ao invés de prendê-lo junto com ela.

Então no clímax da história, o delegado, já sem paciência nenhuma com o cabra que não se decidia, num sol a pino, encerra aos berros a proposta ao marido, coitado:

_ Escolhe, homem, o céu ou o cheiro!

...

Não fiz o conto porque ainda não sei como sair dessa. Há dilemas menores que ainda não resolvi, não sei se posso decidir a vida de um cangaceiro agora.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Enquanto isso, no Tribunal...

O mais sacana da vara diz alto:

_ É que agora o Pedro é poeta!!

Pedro é um rapaz alto, magro, com ar ligeiramente inseguro, talvez um pouco desconfiado, mas, de todo modo, um cara de bom humor.

Volta para a mesa rindo do comentário feito pelo sacana, que é um pouco barrigudo e espaçoso, em todos os sentidos. É o de humor mais notável. Aquele tipo de cara de liderança, que costuma ser popular no trabalho.

O mais velho da vara tampouco é o mais sério. No entanto, engana como ninguém. Quando o conheci pensei que ele era o chefe. É sério e ainda tem bigode. Morador de Ipanema, o primeiro comentário que vi sair de sua boca foi sobre a praia nos finais de semana, depois do metrô. "Aquilo lá virou o inferno depois daquele trem. Pelo menos durante a semana dá pra ter um pouco de paz." Esse é o mais velho da vara.

Depois de algum tempo - talvez depois de ter sentido cheiro de uísque entre uma hora de almoço e outra - nutri alguma simpatia por ele. Passei a observá-lo também. Ouvir suas histórias, medir seus afetos.

Ele quase sempre fala das filhas, que são muito inteligentes, bonitas, bem sucedidas; eu gosto de ouvir. Outro dia ele me falou: "você deveria juntar seu dinheiro e fazer um mochilão pela Europa, como o que minha filha fez".

Ouço seus conselhos contemplando a visão de quem tem 50 anos a mais de vida.

Foi com esses olhos que ouvi sua resposta ao mais sacana da vara, em meio ao sorriso do Pedro desconfiado, o mais velho disse:

_ O Pedro é poeta? Eu não sei... pra ser poeta tem que ter sofrido um pouquinho...

Na hora, meu hedonismo inteiro fez cara feia. Depois pensei que talvez, também, assim, devagar, depois do amor, amando, antes de amar; doer só um pouquinho, pra saber que vive.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entre flores e meninas

Quando você chegou, te recebi com flores, assim como aconteceu naquele aniversário. Adoro dar presentes, mas não sei se sou muito boa nisso. Falta um gole de paciência; gosto muito quando os presentes me encontram. É mais ou menos assim: ao longo de uma conversa, surge a deixa que te lembra o livro x, a bebida outra, o afago preciso; dão bons presentes, esses segredos discretamente delatados.
Talvez tenhamos sido sempre claras demais. Varri as prateleiras, estandes, vitrines... nada te surpreenderia. Pensei em levar aquele livro sobre o qual falamos, do velho que nunca dorme, porque tem medo de morrer - ou será que sempre dorme? - mas sua avó havia morrido recentemente, não ia pegar muito bem.
Até uma hora antes do jantar marcado na sua casa, tudo o que eu tinha era a certeza de um vinho na cabeça. Passei no mercadinho daquele português gente muito boa e disse a ele que a ocasião era especial, que o vinho era presente, que você gosta desse jeito, assim assim e coisa e tal.
Ele entendeu bem, fez cara de sabido, me mostrou a palma da mão como quem diz "aguarde" - ou, quem sabe "me veja". Eu vi. Das linhas da pele do português, que agora vasculhava suas prateleiras com ar professoral, virei para o dedo que quase me doía, de tanto que tocava minhas costas.
Nessas circunstâncias, costumo me virar com cara de poucos amigos, você me entende, não é nada agradável ser abordada dessa maneira insistente.
Virei.
Quando percebi o que me chamava, tive a estranha impressão de ter sido tocada pelos pequenos caules de rosas que surgiam a minha frente. Veja só que tamanha surpresa tive: flores de todas as cores, vermelhas, brancas, quase cor de chá brotavam de um enorme balde que flutuava bem ali na minha frente.
Não tenho muita certeza se foi porque nos encontraríamos em seguida, mas havia também aquela flor amarela, que, quando olhei, era você. Não sei se já te aconteceu isso, de ver uma pessoa num balde de flores. Sei que muitos encontram amores em livros, paixões em quadros, lembranças no outono: eu te vi naquelas pétalas.
Eram vivas, de um amarelo mais expressivo do que o normal. Como se não bastasse, estavam pouco abertas, nesse contraste que envolve a timidez e a ousadia de um desabrochar; a flor amarela era você, dizendo sim à vida.
De repente, o balde cambaleou, percebi que se escondia embaixo de todas aquelas cores uma menina de pouco mais de um metro e meio, que tentava equilibrar as flores - não tão flutuantes assim - com as duas mãos.
"Compra flor, tia?", me perguntou ofegante.
"E por que eu vou comprar se é coisa que dá em tudo quanto é lugar?", decidi provocar a criança.
"Minha mãe falou que nossa flor é diferente" - ela disse, em tom de mistério.
"Ah é? E eu posso saber o que ela faz?"
"Ela faz a pessoa que receber ser feliz pra sempre."
"É mesmo? Então eu quero essa amarela do meio, você gosta dela?"
"É muito bonita, tia! Mas não prefere essa rosa mais aberta?"
Disse que não, queria aquela outra. Agradeci logo depois que ela embrulhou e foi embora, serelepe, interceptando os casais que encontrou ao longo da calçada.
No caminho pro seu jantar, lembrei dos livros que quase levei, do vinho que escolhi e de toda a sorte de objetos que pensei em te comprar: esse ano não.
A menina era esperta, boa vendedora, ainda vai descobrir que o há de diferente com as flores é justamente o que as aproxima de nós: elas morrem.
Elas morrem, e o feliz para sempre é sempre no futuro. Não escute essa bobagem, sempre é nada, não se pega nele nunca, e eu te quero mais perto, mão na minha mão, mais calor, carne, menos príncipe encantado, conto de fadas; eu te quero terrena, flor. Cada corpo é um paraíso.

Antes de tocar a campainha, puxei a caneta e escrevi com letras miúdas no cartão:

gosto-de-te-ver-florescer.

Já é seu aniversário, meu amor; a vida não pisca.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sobre "Os vestidos do tempo"

A fila era mesmo enorme, mas o que me chamou a atenção foi o sujeito atrás de mim ao telefone. Textos têm vida própria, eu deixo, nem de longe pretendo encerrar a liberdade de uma história.

Ocorre que eu ia escrever sobre ele, o texto tomou outro rumo, mas não esqueci. O cara mesmo não mexeu comigo, eu mal olhei pra ele. No entanto, ouvi partes da conversa, já que o espaço era pouco e ele ficava imediatamente atrás de mim.

É que em meio a um calor infernal, essa fila imensa, ele conversava com a pessoa do outro lado, num tom meio rabugento, um tom que me chama a atenção, porque me identifico, assim, beirando a falta de paciência, mas ainda com certa delicadeza, sobretudo porque a pessoa do outro lado devia ser querida. Eu diria que era a esposa, namorada, namorado, não deu pra sacar se era gay, mas acho que não.

Ele mantinha o diálogo com essa outra pessoa, e eu ouvia, entre sons pouco compreensíveis e manifestações do tipo "érr...", "pois érrr..."
Já ao final da conversa, depois de passado algum tempo e nosso lugar na fila mal ter avançado, ele diz:

_ Olha, parece que vai demorar aqui, põe a cerveja pra gelar?

Era segunda-feira. Fiquei pensando que prazer mais delicado é esse: ter alguém em casa te esperando com uma cerveja gelada.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Notas de um eu-lírico de vestido

É madrugada de mais um fim de uma semana. Apesar de me sentir exausta, a noite de tempestade me convence a adiar um tanto mais o sono. Não é sacrifício: a madrugada é linda, a chuva é linda, e eu ainda tenho fome.
Hoje é sexta, ninguém foi ao mercado. Podia mesmo era ter umas sobrinhas do almoço, o que se fez dele?
Escolho as torradas. Pelo menos tem geléia de amora. Lembrei que almocei correndo na rua, não ia ter comida mesmo. É até bom: a torrada integral me lembra que tenho mãe. E que ela faz dieta. É mesmo muito doce essa lembrança, mas faço votos sinceros de que ela lembre que tem filha em outras circunstâncias. Café amargo é melhor do que torrada integral.
Hoje foi um dia de conquistas: saí de guarda-chuva e voltei com ele. Acredite.
Tenho a séria desconfiança de que sou responsável por uma gorda porcentagem do faturamento dos vendedores de guarda-chuvas do Rio de Janeiro. Eu esqueço sempre. Mas hoje não. O que foi ótimo, porque passei horas esperando um ônibus, protegida pelo meu guarda-chuva poderoso. O que aconteceu foi que troquei os esquecimentos: lembrei disso, esqueci daquilo. Daquilo" é o banco. Esqueci de passar na porra do banco.
No fim das contas, encontrei um táxi com débito, mas ter paciência ensopada seria bem mais difícil.
A porta do banco sempre trava comigo. Só melhora quando estou de vestido. Juro. Na escala das vulnerabilidades, vem o vestido, depois o texto. Ou talvez o texto antes do vestido. Depende. Mas, no fundo, deve ser porque é muito mais difícil esconder qualquer coisa num vestido. Qualquer coisa cortante, fatal. Fica tudo muito mais claro num vestido; a porta está aberta.
Pois bem: foi um dia de conquistas. De re-conquistas, contrastes, perdas. Por isso a avidez por papel: Eu não posso esquecer.
Dentre os motivos que me levam a escrever estão três: seduzir, lembrar e aprender a morrer. Dentre as pessoas que me seduzem estão três: as que também quero seduzir, as que quero lembrar, aquelas com quem quero morrer.
Hoje foi particular porque tomaram forma algumas pessoas das quais quero lembrar, mas não sei se quero mais morrer com elas. Encontrei inúmeras inspirações em potencial, mas envoltas agora num charme tão distante...
Inspiração é coisa de dentro. Isso tudo de "in" quase sempre pressupõe dentro, é certo. Inspiração distante é contradição. Inspiração é coisa de quem está "sendo agora".
Enquanto escovava os dentes, pensei em escrever uma carta ao meu tio avô. Não sei como, ele me pareceu tão presente. Mas que estúpido escrever a um morto! Talvez Por ele, tal qual sublinhou Deleuze, mas tê-lo como destino eu não sei.
Curioso ter lembrado dele. Foi a primeira morte que vi mais perto, um soco na garganta, mas uma partida que não chorei.
Minha amiga vai morar em Lisboa quarta-feira. Disse tchau a ela hoje, até breve, e foi tão estranho que bebi vodka. Dei um abraço quente, e senti um aperto no peito. No fundo, me encanta essa morte consentida, essa vontade de mudança, essa coragem. Não cabe o choro: ela vai casar na terra do bacalhau, mal cabe em si.
O Rio continua lindo, mas meu inferno astral começou com três prédios caindo. Bebemos cerveja no trabalho, como quem esquece. Não deu. A madrugada avança, a vida diz que qualquer coisa pode desabar a qualquer hora. Agora, sinto algumas pedras no meu sapato. O prédio aqui ainda está inteiro; é que me bateu forte uma saudade do amor.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Se eu chorar, corra

Se um dia eu chorar na sua frente, é porque alarguei. De tanto engolir, minha alma engordou. Aumentou suas medidas, arrancou o vestido pelos olhos. Pode ter certeza: se eu chorar na sua frente é porque encaixei e não coube. Corra.
Não ria de mim. Quase todo mundo cabe em si, eu sei. Quase todo mundo guarda os olhos para ver, é bem melhor assim, eu penso sempre nisso, mas, se eu chorar na sua frente, tente entender que não quero.
Corra pra ver que não posso nada com minh'alma. Não tem querer quando ela incha, não tem mais eu, persuasão, suborno; quando choro, meu eu é súbito.
É uma experiência que finaliza toda e qualquer discussão cuja pergunta central é se a alma existe. Que piada, eu diria: quando choro eu quase pego nela.
Pego parece tão carinhoso, é mentira, eu quase rasgo ela. Depois amo. Uma ruminante de alma: é o que devo ser.
Mas você, se eu chorar um dia, corra. Corra rápido, a passos largos, sem medo;
corra pra dentro de mim.
Haverá espaço, talvez um lugar já vazio onde estará escrito "alma", não se espante. Trace um risco, escreva "lama" e deixe vazio mesmo. Corra daí. Corra mais fundo, mais dentro que minha alma, vá até onde as pisadas cessam: eu deixo você olhar pra mim.
Então me olha lento, por favor, demora esse olhar por dentro, ninguém nunca me olhou assim, eu nunca deixo entrar. Diz pra mim de que cor é meu eu mais fundo, diz se é bonito, se cheira bem.
Morde. Isso, devagar - arrancar um pedaço dói. Agora me diz que gosto eu tenho, se é doce meu mistério, diga que tal te parece...
Esquece os minutos, degusta minhas entranhas, confia no meu avesso.

... se eu chorar na sua frente, corra pra dentro de mim. Se eu chorar por dentro, nada. Se afundar, afundo junto, e nada mais.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os vestidos do tempo

Outro dia mesmo, você vê, estava eu numa fila enorme, no banco. Atrás de mim, um cara de meia idade falava ao telefone com uma mulher que, suponho, talvez catolicamente: era sua esposa.
Conversava um tanto puto por conta da fila, que parecia mesmo infinda. Enquanto falava com ela, olhava de rabo de olho o início da centopéia, como quem parece maquinar algum plano maquiavélico.
Eu observava a evolução da conversa, atentamente mergulhada naquela outra vida; um dos prazeres que as filas proporcionam é o tempo.
Não o tempo corrido, que não se pega, mal se vê, mas, ora ora, o tempo do quase, o tempo do ainda: o tempo da espera. Eis o grosso desse fenômeno, eis o concreto desse mistério: quem diz que nunca tocou no tempo, o diz porque nunca precisou esperar.
O tempo da espera é tão real que pesa. É uma presença imperativa, altiva, tão pouco subordinada.................
uma presença que dói. Por muitas vezes dói. Nem sempre as pernas, as costas, a cabeça; dói por dentro. Num ponto tão misterioso quanto o tempo, tão pouco palpável quanto ele, mas que a dor faz tomar forma: a aflição da espera desenha o disforme.
Na fila do banco, quase ninguém vê. Olham seus relógios, analisam os ponteiros, param, pensam, falam com suas esposas, disfarçam a espera, ensaiam uma conversa qualquer - quem sabe o tempo - "que tempo!", disse um.
Da fila dos idosos, responde um senhor, cujo quadril se sustenta em pequenos galhos já bem gastos: "olha, eu não aguento mais esse tempo".
O asfalto até queimava, mas lá fora. O tempo que li nos galhos era outro.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Seu juiz, não me prende, é poesia

A mulher disse que o cara tem Alzheimer. É duro. É mais duro ainda porque ela também assinalou: demência.
Demência é uma palavra muito cruel. Sempre me caía mal quando ouvia alguém dizer que fulano é demente, mesmo se for esse o termo certo para o tal do diagnóstico, seja lá como se chama isso. "Certo" é engraçado. "Certo" é massagear os ouvidos, ora veja. "Demente" não massageia nada.
A filha dele mora na Lagoa, mora com ele. O coroa tem mais de 85 e tem Alzheimer, eu já disse isso, eu sei, é só pra ficar bem claro que ele tem Alzheimer, você entendeu, certo? Porque quem disse isso a princípio foi a advogada, quando abriu o processo com o pedido de interdição.
Uma interdição pode acontecer diante de uma doença como essa, que faz uma caneta na mão virar uma verdadeira arma de auto-destruição. O sujeito perde os direitos políticos e, sim, outra pessoa responde por ele. Era isso que a filha do cara queria.
O juiz mandou o perito dar uma olhada na situação, pra ver se não era caô da garota pra ficar com o dinheiro do velho, isolar ele num quarto e dar festa pelo apartamento inteiro em plena quarta-feira, essas coisas que eu e você sabemos que podem acontecer.
O processo caiu na minha mão sem querer, eu nem flertei com ele, veio de mão beijada e eu li despretensiosamente, porque me interesso pelo outro, porque sou curiosa, porque gosto de ver a história acontecer. A surpresa, seu juiz, foi a poesia da demência.

(...)

Relata que o avô faleceu aproximadamente em 1962, com 61/62 anos.

"sequela da 2ª guerra, meu avô foi prisioneiro de campo de concentração na Rússia por 4 meses."

Trabalhou como gerente de obras, gerente de hotel, carabineiro. Ao que o saiba, foi tababista, e foi elitista:

"de vinho, com certeza".

Perguntado quanto dá 7+15, diz:
"7 mais... 15... 7 mais 15... acho ou não... 7 mais 15
...
...
de que sete?"

(Lúcido, meu caro psiquiatra. De que 7 o senhor fala?)

São 15hrs 02 min e pergunto se sabe qual é o meu nome, ao que diz:
"o seu nome?
Eu to sendo agora...
e você tá aqui."

(Não tem sigilo, seu juiz. Tem poesia aí em cima.)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Café com estímulo

Para João, com quem dividiria minha cama.

Hoje foi meu primeiro dia de férias. A chuva não parou um minuto e a primeira frase que ouvi quando acordei foi "hoje tá pra você". Não sei se entendi, falei, é claro que estava pra mim, primeiro dia de descanso, tão cansada - mesmo quando ganhei um puta recesso ainda me faltavam alguns resultados, foi mesmo uma grande pressão, mas coube até uma bebedeira de vez em quando, você bem sabe, veja só se eu ia aguentar sem uns copos em volta de uma gente bonita. Então ela me olhou e disse "você não sabe do que gosta".
Ela falava da chuva. Merda. Esqueci que disse a ela que gosto de chuva, eu sempre esqueço dessas delimitações, porque alguns dias ensolarados são tão bonitos, e eu com essa mania de achar tudo muito bonito, puta que pariu, agora ela vai pensar que não tenho palavra. Foda-se. Talvez não seja da chuva que gosto. Talvez tenha sido só aquele dia chuvoso, quando saímos de roupas quentes e entrelaçamos as mãos sob a desculpa do frio. Isso. Talvez eu goste das mãos, sabe-se lá, das desculpas, do quente que o frio deixa aparecer e o calor afasta. Não tanto dessa água.
"Eu gostava quando disse, agora parece comum". Debrucei a garrafa de café na borda da xícara e, no silêncio, a enxurrada de insônia fazia coro com o barulho da chuva. Ela me olhava séria e a melhor forma de sustentar aquele olhar foi recusar o açucar. Eu não ia dar esse mole, melar meu café da manhã daquele jeito que faço quando ninguém vê.
"Quer dizer que você é disso?" Fiquei confusa. O café descia difícil, mas eu fazia força para adoçar gole a gole, com uma doçura que o orgulho guarda lá no fundo e você nem sabe, mas serve pra essas e outras - de açucar eu conheço.
Anote aí, meu querido: são açucarados também alguns teimosos. E porque o são, tão resistentes, enterram fundo esse sabor. O gosto que fica nessa teima você conhece; é o tempero desse doce que é velado e dá vontade de lamber. É o mesmo desejo que lembra: somos mais teimosos do que eles.
Pois bem, voltei à pergunta dela disfarçando as curvas desse passeio:
"Se sou disso, de beber café amargo?" Talvez ela não tenha visto que eu suprimi o açucar, resolvi sublinhar.
"Disso, de acordar achando comum, a chuva, o amor, o que era importante um dia".
"Eu não disse isso".
"Mas é assim, não é? Você se cansa fácil".
Ela arrumou o jornal nessa hora. Queria te dizer por qual motivo, mas não sei. Se foi para desviar o olhar e manter as mãos ocupadas, ela até conseguiu, porque eu esperei aquele barulho acabar pra dizer o que você já sabe:
"Eu me canso." Ganhei de volta um olhar sobressaltado, de lindas molduras arqueadas que aguardavam o complemento: "Mas não é fácil".
Ela parecia descrente: "Você esperou a chuva por semanas, fazia um calor infernal... eu não sei o que é fácil pra você".
Então contei a ela a história do cara da biblioteca, lembra dele? Eu sempre passava correndo, mas nutria pelo sujeito uma simpatia gratuita, dessas que me são tão raras que agarro. Sempre que tinha algum tempo, parava alguns minutos para conversar com ele, que, por sua vez, sempre que podia implicava com a minha pressa.
Um dia, me perguntou: você é uma pessoa paciente? Achei graça da pergunta, é possível que tenha franzido a testa antes de responder: sou disciplinada; tenho paciência quando preciso. Ou, gratuitamente, quando o caminho me dá prazer.
"Quer dizer que quando você espera de bom grado, tal qual suportou o calor pensando nos dias de chuva, é porque essa espera é prazerosa e, por vezes, ainda mais prazerosa que o objeto de desejo?"
Linda e perspicaz. Desconversei:
"Quer dizer que todo mundo dormiria em mais casas, se soubesse antes como são bonitas as perguntas de uma mulher pela manhã."
Droga, falei de novo. Falei de novo que acho bonito, esse senso estético é de foder, porque eu achei bonito mesmo - e por isso falei, oras - só que agora vou ter que pensar duas vezes antes de dizer por aí que gosto de dormir sozinha.
Completei:
"Quer dizer que é preciso estímulo; é o pescoço da vida. Por isso se espera, por isso se cansa, por isso se bebe café".
Em silêncio, ela sorriu; linda e perspicaz.
A chuva ainda caía com força, matando a sede daqueles que cansam.

domingo, 20 de novembro de 2011

Chega de fantasia

Acordou na quarta-feira com a última lembrança no pescoço. Deslizou a mão pelos cabelos, mexeu as pernas, afastou o lençol e sentou na cabeceira da cama, com a mão na testa. A cabeça, como doía: maldito uísque vagabundo.
No caminho para o espelho ainda ouvia o rock dos Mutantes, "veja como vem, veja bem..." e sentia estourar a cada passo a frase da noite: "não vá se perder por aí", os meninos avisaram.
Escolheu com firmeza a torneira de água fria e lavou o rosto, com a certeza de que precisava de mais do que um café para acordar, por hora.

Empacotaram os sonhos há quase um ano. Fazia um tempo frio no Rio de Janeiro e as chuvas, cada vez mais frequentes e torrenciais, levaram com a correnteza os pacotes de futuro que não cabiam mais na cama.

(continua)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Isto não é uma ervilha

Era uma ervilha bem verde no prato e tantos talheres em volta. Tinha garfo, faca, dentes, e uma ervilha no prato. O copo transbordava, havia também mais garrafas sobre a mesa e mais ainda guardadas no armário. O forno abrigava um banquete preparado com o mais precioso requinte, mas sua fome era de ervilha. De uma ervilha. Daquela ervilha verde musgo, já fria -ora, que diferença faria - cambaleante na porcelana que espelhava de tão clara.
Já havia gozado muito da infinitude daquele branco. Salivava ao lembrar daquelas tardes, quando dedicava o tempo que fosse a contemplar aquela ausência que se exprimia em porcelana.
Nunca viu nada mais livre. Conheceu a liberdade medindo seu reflexo no fundo do prato vazio. Apaixonou-se pelo paradoxo da brancura; reunião de todas as cores e desfile de cor nenhuma. Namorou a ausência de qualquer coisa que limitasse a possibilidade daquele prato, a não ser ela mesma.
Acordou ofegante no meio de uma madrugada e decidiu: não é um prato. Sabe-se lá o que viu naquela noite, pouco falava, pouco se sabe sobre o que fomentou esse seu comportamento. No entanto, é certo que falou com todas as letras, buscou a porcelana na cozinha e pendurou na parede do quarto. Ficou bonito. Mas não era um quadro.
Por vezes guardava no criado mudo, ao lado da cama. Gostava de acordar ao lado daquela liberdade, sentir o cheiro daquele ser que era incapaz de se auto-limitar. Era ela quem o fazia ser o que fosse.
Passou dias fugindo desse jogo de determinar. Na esperança de que ele fosse coisa nenhuma, maldizia toda a noite sua consciência feroz, devoradora de sujeitos, objetos, possibilidades.
Elegeu a ausência como fuga do cárcere da definição: que tudo faltasse àquele ex-prato, àquela coisa que era qualquer coisa agora.
Lugar certo já não tinha, aos poucos abandonou sua finalidade; no início ainda era uma interrogação, mas logo passou; despercebeu-se.
Dia a dia lapidou a alma na medida daquele nada. Incorporou a infinitude daquele ponto branco, até a tarde em que sentou à mesa e havia uma ervilha no prato. Parecia deliciosa e bela a imagem daquele verde no branco da porcelana, mas tão imperativa. Media o tamanho do incômodo; era um buraco na alma.
Observava curiosa a existência daquele caraço inesperado, atordoante. Em febre, devaneios ganham letras:

Isso não é uma ervilha. É uma paixão.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Calor agosto

hoje fazia um calor desgraçado nessa cidade, calor do caralho mesmo, daqueles que pipocam, que parecem fritar o asfalto e parecem agitar todas as pernas, as pessoas, parecem que vão fazer o centro da cidade explodir. e aí eu tinha que fazer um monte de coisas no centro da cidade porque, você sabe, segunda-feira é o meu dia de ir ao centro e eu prefiro fazer isso quando o dia é cinza. eu gosto de dias cinzas porque eles não esperam nada. um calor como esse parece sempre esperar alguma conversa sobre o quanto está quente ou que você ponha um biquini, deixe de ser preguiçosa e vá ler na praia. em dias cinzas, quando passa alguém fumando você acha bonito, você até fuma junto, porque esses dias te pedem um pouco de fogo. dias quentes como os de hoje já têm fogo demais. mas aí eu vi um bonitão de terno passando naquele amarelo todo que era o sol que fez mais cedo e pensei "cara, não sei como ele consegue fumar nesse calor". nem sombra está, veja só, e eu devo ter olhado demais, porque ele piscou e ofereceu um cigarro e eu até acompanharia se tivesse cinza, mas era meio dia e eu disse não, esse tempo já me traga. aí eu queria ir à pé, porque sempre há muito o que pensar, só que eu peguei um ônibus. não consegui sombra e fui fritando, vendo todo mundo muito suado, algumas calças puxadas pra cima, num improviso provinciano corajoso, desses que a gente inveja. quando já quase descia, eu vi algo muito azul entrando pela porta do meio - sim, há portas do meio em alguns poucos ônibus de agora. eles enfiam por ali os cadeirantes que esperam horas ao dia por um transporte desses para serem levados pra vida - aí, como eu disse pra você, vi alguém muito azul entrar no inferno sem ar condicionado onde eu estava. era um sujeito negro, bem negro, e tinha uma barba rala branca. ele vestia um uniforme cheio de picolés e eu olhei pra ele e tive vontade de comer a camisa dele, verdade. no lugar reservado para cadeira de rodas, ele deixou uma caixa enorme que carregava junto, toda azul também e mais cheia de picolés ainda. eram de todas as cores que você pode imaginar. então ele se sentou de lado para a janela e fazia muito sol de novo. debruçou os dois braços na caixa gelada e ficou ali, numa elegância só. quando chegou o meu ponto, eu saí de lá de trás, onde eu estava e via de canto de olho, desse jeito mesmo que a gente observa quando não quer que o olho seja visto. atravessei o corredor do ônibus, em meio a algumas daquelas crianças que vivem a eternos 40 graus e têm sempre bichinhos comichando o bumbum. passei por esse mar saltitante que é o fluxo da vida infantil e parei no azul, dessa vez ao lado dele. o sol denunciava as marcas de suas mãos, muito negras, marcas de quem acordou cedo pra ver alguém sorrir. fiquei olhando pra ele por algum tempo e não sei o que deteve mais o meu olhar: se foram as feridas de alguém que vende picolé pra se aquecer quando esfria. se foi o olhar daquele homem azul, fitando a janela, olhando sério a calçada passar. se foi o passado gelado dele, que o sol clareou bem ali na minha frente.

domingo, 17 de julho de 2011

Vontade de tempestade

quando chove em mim e eu transbordo, também o texto se molha. minha alma encharca e pinga eu demais nas entrelinhas. elas pesam.
que pesem.
pouco me importa que essas letras úmidas terminem mofadas, não pelo tempo, tampouco pela gaveta, mas de tanto que carregam do meu eu-afogado. de tanto que me carregam, de tanto eu que essas linhas levam, coitadas.
e são mesmo assim, tão passivas, tão dispostas. basta que me importe em escrever o que quer que seja, numa perspectiva tradicional de organização, que elas surgem. paralelas e constantes, até a perfuração do ponto final. são, as linhas, reféns de qualquer um, de contrato a poesia. de lista de compras a caderno de caligrafia. não importa.
meu bem, só me importam as linhas porque, quando chove em mim, eu transbordo. temo que só por isso elas existam. mas eu disse que temo? pois eu temo porque não gosto de transbordar, você sabe.
transbordo porque quando um, em mim, mil. não há gota, não há um gole, um bombom, tampouco há metade de uma afetação: há dilúvio.
e você, que me afeta, é puro ar em falta, rarefeito, que beija em apneia e retoma o fôlego no perfume dos pescoços onde me procura.
você é nuvem, que passa delicada pela minha janela, dançando no ritmo do vento. acena do céu com braços de algodão e derrete em seguida, na minha frente, para reaparecer na janela de outros olhos. que seja. que seja breve e que passe. mas passe pela minha janela.
sabe, você é nuvem condensada, vez ou outra. falo daquela enorme aparição cinza que se forma no final dos dias quentes ou num inverno atípico no Rio de Janeiro, como o que estamos vivendo por agora. sei que o tempo andou fechado por aqui, mas me pergunto se você viu a lua linda por esses dias. era um céu limpo, em plena quinta-feira, de um azul intenso, que contrastava, sacana, com o brilho desse satélite libidinoso, peter pan das luzes.
mas dias como esses são claros demais. há que ter meia luz, há que saber ser nuvem condensada, meu bem. saber fechar o tempo e encher a cidade de um cinza que sinaliza seu desejo de tempestade.
até que, por fim, você chove em mim.
e eu transbordo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Não é poesia


Volta e meia começo coisas. Coisas que começo pra terminar, coisas que começo depois que termino outras, coisas que não terminam, coisas que começo, termino e volto, volta e meia.

Enfim, decidi começar hoje o projeto "correr na praia" 2011. Afinal, todo o ano, desde que tenho 10, começo uma atividade física específica em algum mês. É de praxe. Nesse vício, já fiz de yoga a muay thai, mas, embora fique muito gostosa de shortinho de laycra (cof cof), nunca gostei de correr. No entanto, os gostos mudam, o paladar amadurece e faço parte do grupo dos que têm a alma flexível, apesar dessa ser uma afirmação estranhíssima. Assim, tomei gosto e agora pretendo fazer isso pelo menos 2 vezes por semana.

Ok, não é isso o que importa. O que importa é que, para inaugurar o "projeto", decidi ir hoje até o MAC, que, pra quem não sabe, é o museu de arte contemporânea de Niterói. Acabei dando uma circulada pelo pátio, porque não dá pra resistir àquela vista. Aí, bom, não é só porque acredito na lei da atração, mas quem faz licenciatura ATRAI. É claro que tinha que ter uma excursão escolar, claro. No pátio, havia um grupo de uns 20 quase-adolescentes, as idades variavam, estudantes de uma escola pública. Como o MAC só abre às 10, estavam todos espalhados fazendo hora e eu, que sou uma boa observadora, de repente escutei a pérola "Eu nunca fui a um museu", seguida por outras vozes, que pipocavam: "nem eu".

É realmente inacreditável. São afirmações como essas que me inspiram a ser professora e plantar nessas cabeças um pouco mais de interesse, que cria a oportunidade. Um dos principais objetivos do professor, pra mim, deve ser semear a curiosidade, provocar o encontro com o novo e o interesse em descobrir. A fala desses meninos denuncia um sistema básico de ensino público predominantemente sem paixão. Triste.
Tudo bem, era uma excursão escolar, mas, o que quero dizer é que a afirmação do menino, de uns 14 anos, mostra que isso deveria ter sido feito há séculos.
Outro dia vi uma reportagem de uma menina estrangeira que pintava aos 5 anos. Tinha um senso estético incrível porque foi estimulada. Isso prova que não dá pra dizer que que as crianças, por si só, não têm o menor interesse. Ele precisa vir de algum lugar. Se eu contar que eles (na foto) pareciam ansiosos para abrir o museu e, quando abriu, saíram correndo, vocês nem acreditam.
Se admitimos, embora contrariados, que existem famílias de diferentes rendas dentro de escolas diferentes, concordamos que o estímulo deve partir do meio acadêmico. Ele deve funcionar de modo que alunos diferentes recebam os mesmos incentivos. Essa é a ideia. E a moral da história é que, o que eles dizem eu assumo como inspiração, pra digerir. Mas nada disso é poesia.

domingo, 5 de junho de 2011

Tempo da beleza

Eu: E a flor?
Ela, sentida: Você comprou tão madura que hoje, quando acordei, ela estava seca e aí eu... joguei fora. Deixar ela feia por aí seria um descaso.
Eu: Claro, você fez bem.
Ela: Acho que nós temos que abrir mão das coisas assim que elas murcham.
Eu: Concordo. É o tempo da beleza.
Ela: Exatamente.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vale tudo

A vida começa no tapa, essa é a verdade. Quando aquele sujeito te tirou do dentro mais dentro que você já tocou e te fez humano num susto só, foi no tapa. Antes, você era quase peixe, numa quase-hidromassagem orgânica e habitava aquele esconderijo sem saber que se escondia. Você era o mesmo nada que é hoje, mas sem saber que é justamente ser nada o que te permite ser alguma coisa. É mesmo engraçado isso de ser sem saber que é. Mas era assim.
Pois bem, se eu tivesse qualquer capacidade linguística quando nasci, se eu tivesse nascido sabendo que sou, assim, só de sacanagem, eu teria dito alguma coisa ao cara que me tirou de lá de dentro e fez com que minha primeira experiência com tudo isso de ser fosse um choque. Porque um tapa não basta. Quando, depois da palmada, meus pulmões encheram de ar e percebi que eu era um corpo-quente-num-puta-ar-condicionado, certamente pensei: o drama continua, bb, a vida começa no tapa e no choque térmico. Nascer é dramático.
Se o anacronismo é o tom do texto, devo dizer que responderia a palmada com o grau de petulância que assumo hoje: Bate mais.
É isso mesmo, deixemos de hipocrisia: boa é a relação que começa na porrada. A respiração inaugura o primeiro round desse vale-tudo que é a vida, e é com um tapa que você vira gente.
Desde então, é só embate. E você vai descobrindo que viver também é dominar o próprio corpo e aprender a destilar prazer dessa disputa. Percebe que deve enfrentar a própria consciência e, com isso, se encontra, muitas vezes, no meio do ringue com a consciência do outro. Que delícia é, quando isso acontece. Um vale-tudo de verdade é um encontro de duas vidas que se permitem bater, apanhar e todo o resto. Eu sou dessas, quando a outra consciência me interessa.
Por isso, apesar de falar com certo mau humor da minha primeira experiência no mundo, não gostaria que fosse outra.
Um tapa afeta. Aliás, o tapa é a própria afetação, e deixar-se afetar é o modo mais gostoso de viver.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Mordida de escorpião

Não é segredo que minha principal inspiração, quando algo me toma de vontade de escrever, é o outro. Gosto de observar pessoas. Gosto muito!

(Gosto de pensar que a senhora já idosa, sentada, comendo seus biscoitos de nata e tomando chá por volta das 5, nem sonha que, do outro lado do Café, penso nela. Observo seus cabelos, muito brancos, bem penteados, fazerem par com suas marcas e a forma como segura a xícara.
Observo o modo como olha pela janela e pisca lentamente, como quem pressente a chegada de uma lembrança. Tento observar seu passado, mas é tão difícil. Senhoras desse tipo carregam segredos protegidos pelos cadeados de segredo. Possuem a graça das bonecas russas: guardam em sequência fragmentos de si. Mais: guardam em si outras dessas. São baús, não baixam a guarda. Guardam o passado a sete chaves, como aquele segredo guardado em cadeado de segredo e, quando se abrem um pouco, aos que têm sorte, eis que está lá dentro outra senhora, um pouco mais frágil, talvez sorrindo para o garçom e dando boas gorjetas.
Assim são as mulheres fortes; tal qual bonecas russas: com charme, vê-se dentro delas delicadeza em série, até caber na palma da mão.)

Volto a dizer, depois da necessária interrupção dos parênteses, que, em matéria de inspiração, sou muito pouco egocêntrica. É claro que você pode argumentar: "narciso acha feio o que não é espelho". Mas, ainda que a forma como exponho o outro tenha relação com o modo como me apresento, não muda o fato de que observo e me interesso por isso.
Comecei esse discurso porque pretendia falar sobre mim até a senhora ao lado me arrebatar. Perdi o interesse inicial, o texto mudou de foco; eis o devir. No entanto, alguma coisa sobre o que me propus inicialmente persiste: terminei há poucas semanas "Cem anos de solidão". Tive certa resistência para começar; o livro é longo e tenho uma série de livros longos que me prometi que leria antes de encontrar com o Gabriel García Marquez. Não obstante, devorei e foi uma das coisas mais delicadas que já li. Poesia pura, em prosa.

Lá pela metade do livro, parei num trecho, dos mais intensos, que me pegou pelas pernas. Melhor do que surpresa: me pegou desprevenida, tomando um drink antes de ir pra cama - mania de quinta-feira.
Depois dele, digo: mais gostoso do que um diálogo intenso, é a frase que entra sem doer e você não percebe quando corta, mas quando já está dentro.

Pois:

"- Porra! – gritou.

Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
- Onde está? – perguntou alarmada.
- O quê?!
- O animal! – esclareceu Amaranta.

Úrsula pôs o dedo no coração:
-Aqui."

Quando li, fiquei em silêncio por algum tempo, digerindo. Senti uma vontade muito grande de dizer algo para Úrsula. E para tantas outras Úrsulas, com escorpião no coração. Passei um tempo sem a resposta, até que o trecho me voltou à cabeça enquanto lia Nietzche, há dias atrás, e me deparei com uma máxima que também é minha:

"... em Fontenelle, por exemplo, a quem certa vez puseram a mão sobre o coração, dizendo: 'O que você tem aqui, meu caro, também é cérebro'."


(Quando pagou a conta, saciada, pareceu sorrir pra mim, a senhora. Sorriu com o canto da boca e nossos olhares se cruzaram, num segundo desse dia que é qualquer na vida dela. Olhando novamente, enquanto a vejo fazer sinal para um táxi, percebo que me sorriu porque sabe o que é ser inspiração.
Penso, com vigor: como é bonito esse ar de segurança, próprio de quem encara o desconhecido e sorri. Talvez ela, senhora sabida, tenha visto qualquer fragmento dela em mim. Talvez sorria dessa maneira toda a vez que reconhece, num segundo qualquer da sua vida, uma mulher que não baixa os olhos para um olhar intenso.

Sem mais talvez: eu, desconhecida, também sou boneca russa. E um pouco de escorpião.
Por isso, qualquer coisa que eu tenha aqui, meus caros, seja paixão em potência ou segredo, em cadeado de segredo, é sincero, mas também é cérebro.)