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terça-feira, 24 de junho de 2014
Quando
Ana Cristina César
Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café
Eu
Travelling
Por Ana Cristina César
Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco.
Ana Cristina Cesar
(1952-1983)
Marcadores:
combo da despedida,
eu em outros,
outras mãos
Uma arte
Uma Arte
Por Elizabeth Bishop
A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.
(Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Brito)
One art
One Art
BY ELIZABETH BISHOP
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop, “One Art” from The Complete Poems 1926-1979. Copyright © 1979, 1983 by Alice Helen Methfessel. Reprinted with the permission of Farrar, Straus & Giroux, LLC.
domingo, 13 de outubro de 2013
Deixar a vida
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Caetano ontem me cantando
Eclipe oculto (Caetano, ACHO, ainda tive dúvidas sobre ser do Cazuza)
"Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...
Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...
Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Podia ser "você é linda" (hahaha), massss, sou eclipse oculto, fazer oq rs
"Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...
Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...
Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Podia ser "você é linda" (hahaha), massss, sou eclipse oculto, fazer oq rs
terça-feira, 3 de setembro de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Origem do cômico
"Se for levado em consideração que, durante centenas de milhares de anos, o homem foi um animal acessível ao medo no supremo grau e que para ele tudo o que fosse repentino, inesperado, significava estar pronto a combater, talvez pronto a morrer, que mesmo mais tarde ainda, em regime de sociedade, toda a segurança repousava no esperado, na tradição em termos de opinião e de atividade, não devemos nos admirar que, diante de tudo o que é súbito, inesperado, em palavras e em atos, quando se produz sem perigo nem dano, o homem fique aliviado, passe para o oposto do medo; o ficar trêmulo de medo, envolto em si próprio, se ergue rapidamente, se estende comodamente - o homem ri."
(Nietzsche - Humano, Demasiado Humano, Aforismo 169).
terça-feira, 15 de maio de 2012
Quem sabe um dia
Fica
Chico, claro
"Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum
Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo
Feroz e nocivo
Ao bem-estar comum
Fale do nosso barraco
Diga que é um buraco
Que nem queiram ver
Diga que o meu samba é fraco
E que eu não largo o taco
Nem pra conversar com você
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar
Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor
Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar
Diz que eu ganho até folgado
Mas perco no dado
E não lhe dou vintém
Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar"
Chico, claro
"Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum
Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo
Feroz e nocivo
Ao bem-estar comum
Fale do nosso barraco
Diga que é um buraco
Que nem queiram ver
Diga que o meu samba é fraco
E que eu não largo o taco
Nem pra conversar com você
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar
Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor
Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar
Diz que eu ganho até folgado
Mas perco no dado
E não lhe dou vintém
Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar"
terça-feira, 20 de março de 2012
Um poema da Bárbara
OLHAR QUE REFLETE O MUNDO MEU: O SEU
Os olhos do corpo
Parecem os olhos do mundo
Digo
Os olhos do seu corpo
Parecem os olhos do meu mundo
Seus olhos me olham e.
Seus olhos me olham
E vejo o mundo que sonho dentro
Os outros olhos, que pareçam qualquer
Que pareçam o que vivo fora
Que pareçam
Você
Me sonha dentro
Bárbara Gontijo
(www.querodizeraquevim.blogspot.com)
Os olhos do corpo
Parecem os olhos do mundo
Digo
Os olhos do seu corpo
Parecem os olhos do meu mundo
Seus olhos me olham e.
Seus olhos me olham
E vejo o mundo que sonho dentro
Os outros olhos, que pareçam qualquer
Que pareçam o que vivo fora
Que pareçam
Você
Me sonha dentro
Bárbara Gontijo
(www.querodizeraquevim.blogspot.com)
quinta-feira, 8 de março de 2012
Amigos e presentes
Para além do que já é lugar comum, ganhei de aniversário uma antologia poético-erótica, um livro sobre Sade, um vestido preto-mulherzinha, uma cachaça do Norte, uma cartomante (pois é), mais um que provavelmente também é curioso, mas só vou saber quando Júlia voltar de viagem e... um poema do João. É realmente uma sensação incrível ganhar um poema. Sinto que em qualquer ocasião vou ler e me sentir amada. Seu poema é um abraço, meu amor. O tempo voa, olha só quantas histórias nós já temos! Gosto do teu verso, gosto do modo passional como encara a inspiração, como encara a vida. Você agarra a poesia. E come. E eu te saboreio, te admiro e te amo.
Presente
Não tinha dinheiro pra compra presente
Certos limites são incongruentes
Ofereci afeto como pagamento
O filho da puta disse: Só lamento!
Procurei na fresta da minha janela
Por baixo das pernas, no vestido dela
Com verso rimado, que coisa mais brega!
Fiz o meu presente pra morena fera...
Fera
Ferra
Fera
Mim
Pêra
Péra
Que eu já vou
Leve
Leva
O meu afeto
Quebre
Quebra
Cada versinho
Tem morena no samba
Tem morena na cama
Morena na areia
Me morenar
Tua pele é o segredo
Tua boca é a chave
Teu verso é o porrete
Morena morenar
A roupa, a comida
O cigarro e as cinzas
A cerveja na mesa
O vinho na lua
O futuro te espera
O passado aguenta
O presente é o presente
Morena
João Victor
24/02/2012
(J., escolhi essa foto da Bruna porque, sem dúvida alguma, é uma das que mais mexe comigo. Quando vi, coincidentemente, foi logo depois que escrevi algo como "você é um barco a motor, louco pra ficar à deriva". Acabamos chamando a foto de "à deriva". Eu acho mesmo essa imagem linda, um pouco lúdica também, muito intensa. B., quero guardar essa lembrança aqui, embalada pelo poema do João, como um certo presente também, com a certeza de que admiro muito o seu olhar).
domingo, 25 de setembro de 2011
Bukowski na rede de saquarema
CONFISSÃO
(Bukowski)
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te amo
(Bukowski)
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te amo
domingo, 21 de agosto de 2011
Acachapante
M: bom, discorria sobre a importância das primeiras aulas que tive
ou, de como a primeira aula é um fator determinante em minha disposição à uma disciplina
a perplexidade e encantamento que tem surgido desse primeiro contato
(fora Lógica, rs)
pq aquilo não é pra mim, definitivamente.
T: rs, concordo
e acho que, precisamente esse termo que vc empregou
"perplexidade"
reflete talvez o q os gregos sentiram
diante da mesma descoberta
M: gata, vc não tem noção do que foi a minha primeira aula no curso, eu nem dormi a noite
T:haha, intenso...
M: fiquei atravessada por essas sensações, e "precisei" escrever uma carta na manhã seguinte
mas tb foi covardia
pq a primeira aula que tive foi de Filosofia e Literatura
e daí o cara 'abriu' a aula com um fragmento da Clarice, ACACHAPANTE.
eu vou te mandar depois
T: nussss
manda por agora... não tem por aí?
M: tenho
leia, e depois discutimos as impressões
Clarice:
----------------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.
Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?
É uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido.
ou, de como a primeira aula é um fator determinante em minha disposição à uma disciplina
a perplexidade e encantamento que tem surgido desse primeiro contato
(fora Lógica, rs)
pq aquilo não é pra mim, definitivamente.
T: rs, concordo
e acho que, precisamente esse termo que vc empregou
"perplexidade"
reflete talvez o q os gregos sentiram
diante da mesma descoberta
M: gata, vc não tem noção do que foi a minha primeira aula no curso, eu nem dormi a noite
T:haha, intenso...
M: fiquei atravessada por essas sensações, e "precisei" escrever uma carta na manhã seguinte
mas tb foi covardia
pq a primeira aula que tive foi de Filosofia e Literatura
e daí o cara 'abriu' a aula com um fragmento da Clarice, ACACHAPANTE.
eu vou te mandar depois
T: nussss
manda por agora... não tem por aí?
M: tenho
leia, e depois discutimos as impressões
Clarice:
----------------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.
Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?
É uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido.
sábado, 7 de maio de 2011
Loucura, chiclete e som

"Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era novo, jovem,
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
Nunca mais meu pai falou: "She's leaving home"
E meteu o pé na estrada, "Like a Rolling Stone..."
Nunca mais eu convidei minha menina
Para correr no meu carro...(loucura, chiclete e som)
Nunca mais você saiu à rua em grupo, reunido,
O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
Como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho:
"Black bird, o que se faz?"
E raven never raven never raven
Black bird me responde:
"Tudo já ficou atrás"
E raven never raven never raven
Assum preto me responde:
"O passado nunca mais"
Você não sente, nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era novo, jovem,
Hoje é antigo,
E precisamos todos rejuvenescer."
sábado, 30 de abril de 2011
Brinde ao possível
"Pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
_ digo sim."
pelo que dá e cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
_ digo sim."
quinta-feira, 14 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
Cor-respondência
"Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem-feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta."
Elisa Lucinda
(mais dela, delícia de poeta contemporânea: http://www.escolalucinda.com.br/bau.htm)
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem-feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta."
Elisa Lucinda
(mais dela, delícia de poeta contemporânea: http://www.escolalucinda.com.br/bau.htm)
terça-feira, 5 de abril de 2011
Górgias, alguns séculos a.C.
"Os encantos inspirados por meio das palavras se fazem indutores de prazer e deportadores da dor; porque a força do encanto, somada à opinião da alma, fascina e persuade, transformando as palavras em feitiço [...]. A mesma razão tem a força da palavra ante a disposição da alma, como a dos remédios ante a disposição do corpo, pois assim como alguns remédios acalmam a doença e outros a vida, assim também as palavras. Umas afligem, outras espantam, outras alegram, outras transportam os ouvintes até ..."
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