sexta-feira, 1 de abril de 2011

Metrópole

Faz algum tempo que sei disso: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u545908.shtml

Penso em quando o governo vai parar de adotar medidas alegóricas que não atacam a raiz do problema e só servem para amaciar a questão à curto prazo. Coloco no mesmo pacote do muro o bolsa família, as cotas universitárias e todos esses cheques que levavam o nome de "cidadãos".

Enfim, logo quando soube, eu e meu querido John sentamos, revoltados, para escrever sobre o muro (lembra disso? Eu lembro. O dia era frio e você estava de casaco preto, muito sexy).
Só hoje voltei ao tema e consegui terminar. Embora nunca diga que um texto está pronto (essa imobilidade me assusta; palavras mudam tanto quanto nós), aí está:

Querem construir um muro
no futuro da favela
mas o ventre do samba
aborta a tua cela

Abafam a ferida
na beleza da cidade
Sufocam a liberdade
De quem vive a sub-vida

E não tem mais pandeiro
não tem Rio de Janeiro
é só varanda e capital
mas, o morro tá vivo
dia e noite, o ano inteiro
não é só em fevereiro
não é só no carnaval

Querem construir um muro
pros restos urbanos
que sujam o cartão postal
Isolar a senzala
dos donos da casa
e publicar o anúncio:
"safari internacional".

Uma Berlim carioca
Que vergonha seria!
De um lado, chandon
Do outro, censura
Mas lado a lado, a poesia

4 comentários:

Thaís disse...

Li ao som de um pandeiro cadenciado, chorando mágoas que também são minhas...

Tainá disse...

Pela intensidade da leitura, o escrever vale.

João disse...

Ficou com uma sonoridade intrínseca.

"E não tem mais pandeiro
não tem Rio de Janeiro
é só varanda e capital"
Cada vez mais, o mundo me parece ser só "varanda e capital".

Quanto a questão, absurda e complexa. É claro fato dado que muro não é opção. Mas é claro fato dado que a favela é está sendo re-semantizada na cidade (ou pelo menos, na minha re-semantizada na minha cabeça).
Favela é espetáculo, exótico e grotesco em um mundo de superfície. (desenvolva. rs)

Lembro muito bem desse dia. O ciep cinza, o céu cinza, a chuva cinza, o meu casaco preto (só preto, não sexy. rs)

Acho que uma das primeiras vezes que me bateu aquela saudade. Saudade verdadeira dos tempos de colégio. Obrigado por isso, Tainá.

AAh, e, como leitor, Obrigado também pelo texto, um presente. "Vaca das divinas tetas derrama o leite todo em minha cara!"

Tainá disse...

"E o leite mau na cara dos caretas..."

Sim, o "refrão" ficou sonoro mesmo! Parece que vai ser musicado...
E a questão, "absurda e complexa", me pareceu caber num próximo encontro com a Bia. Vamos combinar!

Ah, saudade de te ler. Bj.